segunda-feira, 28 de junho de 2010

Capítulo 4 - O livro

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CAPÍTULO 4 - O LIVRO

Meu estado de espírito pode ser dividido, sem dúvida, em dois opostos: com Marian e sem Marian. Com Marian sou tão feliz que nem compreendo; um sentimento único que apenas a presença dela é capaz de trazer. Sem Marian sinto-me vazio, como se estivesse faltando o algo mais importante de minha existência. Com Marian só há uma preocupação: manter-me o maior tempo que puder perto dela. Sem Marian, só há a esperança de poder, alguma hora, estar com ela novamente. Com ela eu sou a melhor parte de mim, a personificação da alegria. Mas já sem ela, sou uma casca vazia daquilo que outrora fui.
Atravessei a porta, com gratidão à Marian por me tirar daquele horrível lugar, e entrei na fria noite. Ela estava sentada no meio fio da calçada, olhando, talvez esperançosa, para a imensidão do céu sobre nós. Havia muitas estrelas, que com seus brilhos transformavam o céu em uma obra de arte. Ao me aproximar dela, senti, de leve, seu cheiro. Um sentimento antigo, reconfortante e incrível dominou-me, e de mim arrancou qualquer infelicidade: eu estava com Marian.
“Perdoe-me, Nathan. Eu não deveria ter pedido para você vir aqui, nesse lugar horrível. Eu só... só queria que você soubesse.”
Ela levantou-se agilmente, e agora estava a poucos centímetros de mim, com seus olhos cravados nos meus; esse olhar tinha tamanha intensidade que a única vontade que eu tinha era abraçá-la e não a largar mais. Mas eu queria – e precisava – saber o que estava acontecendo com o único alguém que realmente valia a pena me importar.
“Eu estou aqui, está bem? Não importa o que digam, o que façam, o que pensem ou o que desejem, eu sempre estarei ao seu lado, sempre!” – Enquanto eu dizia essas palavras com minha voz um pouco desajeitada, colocava minha mão sobre o ombro dela, em sinal de irrevogável apoio. Ela hesitou por um instante, então levantou sua cabeça outrora baixa, e disse num tom absolutamente calmo:
“Você promete que não vai me odiar?”
“Como se isso fosse possível...” – zombei eu, mas em seu sou rosto não havia o mínimo sinal de graça; lá só existia medo.
“Prometa, por favor!” – Olhava-me agora esperançosa, esperando que eu atendesse sua prece, que eu, é claro, atendi.
“Eu prometo que não importa o que você me diga, eu continuarei lhe amando na mesma proporção, pois é isso que eu faço, é isso que eu sou: eu te amo.”
E lá em sombrio rosto apareceu algo que há muito eu não via: seu cintilante sorriso, capaz de ofuscar até a mais sombria das escuridões.
“Eu te amo, Nathan.” – Então ela se sentou no meio-fio da calçada, e de lá, com uma voz pura e contínua, começou a contar sua história:
“Sabe, eu e Sara somos primas. Quando crianças, éramos tão juntas que nos considerávamos irmãs de verdade. Mas crescemos, e com o tempo, cada uma foi tomando seu caminho, e nos distanciamos muito, a ponto de mal nos falarmos por meses. Então, há mais ou menos seis meses atrás, nós voltamos a nos falar. Mas Sara estava tão diferente... ela estava má, cruel. Não era, nem de longe, aquela garota que eu tinha tanto afeto. Então eu decidi investigar o que realmente estava acontecendo com ela. Sara não dizia nada com sentido quando eu a indagava; só falava que era por causa de um ex-namorado, que tinha feito algo horrível com ela. Mas Sara jamais se aprofundava demais no assunto, nunca mesmo. Eu pensava: “Será que ele a deixou doente, grávida, alguma coisa desse gênero?”, mas no fundo eu sempre soube que era alguma coisa pior, muito pior. Então, em um dia que ela estava viajando, fui até sua casa e arrombei seu quarto. Revirei tudo, e em uma caixa rosa de madeira – caixa que desde a época de criança foi seu esconderijo secreto – estava um livro muito antigo. Tinha capa verde num tom amarronzado e opaco, talvez por conta da velhice. As páginas eram amarelas e manchadas, e dele saía um cheiro horripilante. Na capa tinha uma estrela de cinco pontos, um conhecido símbolo de ocultismo e magia, sabia eu. “Magia e ocultismo?”, eu pensei, que coisa mais insana. Por que diabos Sara estaria escondendo um livro daqueles? Peguei o estranho manuscrito e levei para minha casa. Foi aí que tudo começou.”
A voz de Marian estava agora embargada, carregada. Sentei-me ao seu lado, e a coloquei em volta dos meus braços, enquanto meus dedos limpavam as lágrimas que insistiam em sair de seus olhos. Embora toda aquela história fosse muito estranha, não havia nenhum vestígio de dúvida; tudo aquilo era a verdade, uma incômoda verdade. Após suspirar longamente, ela continuou:
“Eu nunca fui de acreditar no sobrenatural, como você sabe. Achava que as crendices populares eram histórias, só isso. Mas aquele livro... tinha algo maldito nele. A primeira noite que passei com ele escondido em meu quarto foi certamente a mais horrível de minha vida. Pesadelos, vozes, sentimentos... coisas realmente sinistras. No outro dia, ainda aterrorizada, fui devolvê-lo à Sara. Esse foi o pior dia da minha existência. Quando contei a ela que tinha levado o livro de seu quarto, vi ela ficar tão branca que pensei que ela fosse um fantasma. Ela me contou a verdadeira história daquilo que eu acreditava que fosse apenas um livro. Mas...”
A voz de Marian hesitou. Eu estava realmente assustado com tudo aquilo, mas eu sabia que contar toda essa história estava sendo incompreensivelmente dificíl para Marian. Quando fui abrir minha boca para perguntar a ela se estava tudo bem, um fato me constatou que não tinha nada bem: eu tinha uma branquíssima Marian em meus braços, desfalecida, com estranhas faixas negras outrora inexistentes em volta de seus pulsos, e nela, para meu terror, não havia nenhum sinal de respiração.

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