terça-feira, 15 de junho de 2010

Capítulo 3 - A verdade

Após pedido, voltarei a escrever um conto que há muito começei a postar aqui no blog. Aqui está o capítulo três. A propósito, comentem! Cada comentário, crítica ou elogio, é de extrema importância para mim. Links dos capítulos anteriores:
1° capítulo: http://norestforthecursed.blogspot.com/2010/03/capitulo-1-rosa.html
Capítulo 3 - A verdade
Enquanto meus dedos corriam com delicadeza por toda sua face, Marian tentava, inutilmente, arrumar meu cabelo. Seus olhos estavam fechados, e de si emanava uma felicidade que só era superada pela minha. E ainda lá, em seu rosto, se encontrava esculpido o seu sorriso único, que eu, com satisfação, estraguei beijando seus lábios. Não sabia onde estávamos, como lá chegamos, e há quanto tempo assim ficaríamos. E, sinceramente, não me importava; eu tinha a ela, e ela tinha a mim, e para ambos de nós, isso já era o suficiente.
Subitamente, comecei a sentir uma estranha sensação, algo parecido com um desconforto qualquer. E a cada instante ia ficando mais e mais forte, até que, incompreensivelmente, a voz de Marian soou em meus ouvidos, mesmo com ela não abrindo sua boca: “Acorde!”, dizia a voz. Eu não entendi. Será que eu estava maluco? Não queria estar sentindo aquilo ou ouvindo aquela voz, não queria! Mas, na mesma proporção que eu não a desejava, ela ficava mais forte. “Acorde!”, ouvi novamente. Só então eu percebi, e para mim pareceu que eu sempre soube. “Acorde!”, ouvi pela última vez, e obedeci. Agora eu estava sendo balançado por Marian, que tinha medo estancado em seu olhar.
“Graças a Deus que você acordou, Nathan!” – Agora ela me levantava, eu meio grogue, e me segurava em um forte abraço. Ela não parecia nem de longe a Marian de meu sonho; estava pálida, com olheiras profundas, cabelo um pouco bagunçado, mas o que mais chamava atenção era o intenso medo contido em seu olhar. O galpão todo era mal-iluminado, e um característico cheiro marcava todo o ambiente. Mas todo o lugar parecia um paraíso, comparado com a mesa a qual me fizera desmaiar: lá havia livros envelhecidos, panos, facas, bacias e vários corpos de animais inertes, alguns decapitados, alguns mutilados.
Quando ela soltou-me daquele doce abraço, notei que em sua roupa – além de uma incomum sujeira – havia pequenas manchas avermelhadas, num tom emplastado. Na hora eu soube: aquilo era sangue.
“O que diabos está acontecendo aqui, Marian? Porque tem corpos de animais naquela mesa?” – Perguntei eu, já recuperado, colocando minhas mãos em seus ombros.
Ela hesitou. Quando abriu a primeira palavra ia escapar de sua boca, uma figura ganhou forma na sombra: saia da escuridão, com passos firmes, uma outra garota.
“Você contou alguma coisa a ele, Mary?” – Questionou a garota, sua voz fina soando como música, mas ainda ameaçadora. Não dei tempo para ela confrontar Marian.
“O que você estava fazendo com ela?” – Tomei a frente de Marian, e a empurrando com meu braço, coloquei-a atrás de mim, numa posição para defendê-la. A garota riu alto.
“É, você contou alguma coisa a ele. Eu não sabia que sei namoradinho era tão corajoso. Ah, deve ser porque ele não pareceu tão corajoso desmaiando algum tempo atrás. E quanto a você – Agora ela apontava ameaçadoramente em minha direção – não se meta aonde não foi chamado. Eu não sei o que ela lhe disse, mas você não pode, de maneira alguma, nos ajudar. Agora, vá, e nos deixe terminar o que começamos!”
A garota era muito parecida, em alguns aspectos, com Marian. Ambas possuíam a mesma cor de cabelo e pele, e seus lábios também tinham o mesmo formato. Mas a estranha, mesmo parecendo com Mary, não se parecia com ela. Marian era doce; ela, selvagem. Marian ela bela; ela, ameaçadora. Mary era perfeita; ela, uma cópia mal-feita.
Pude ouvir a voz de Marian logo atrás de mim, dizendo:
“Sara, ele tem que saber. Eu devo isso a ele.” – Uma onda de felicidade tomou meio corpo, ao ouvi-la falar isso – “ E se você nos impedir, bom, tenho certeza que você tem consciência do que eu sou capaz. Nathan, vamos lá para fora. Eu não suporto essa lugar.” – E então ela se foi, sem olhar para trás, em direção da porta.
E eu, sem hesitar, a segui, deixando uma atônita Sara para trás.

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Quando vi o corpulento garoto indo através da porta com minha prima, Marian, não pude deixar de esboçar um sorriso. “Ela é realmente a mais brilhante atriz que eu já vi!”, pensei eu, reconhecendo sua perfeita atuação recém executada.
Suspirei aliviada, a primeira vez após muito, muito tempo. “Finalmente vamos nos livrar da maldição! Finalmente seremos livres de novo!” – murmurei, exultante. Olhei para os instrumentos e corpos em cima da mesa; tudo fachada, sabia eu. Marian finalmente conseguira: tinha achado o nosso sacrifício.

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