sexta-feira, 11 de junho de 2010

Use your illusion

É tudo uma questão de percepção. Apenas concluímos aquilo que podemos perceber, então logo, se não há percepção, igualmente não há compreensão. Não existem fatos concretos, muito menos verdades absolutas; vemos aquilo que queremos ver, cremos naquilo que gostaríamos de crer. Nossa capacidade nata de distorcer toda e qualquer realidade deve ser louvada, pois é uma das âncoras que ainda nos prendem à sanidade. Os clamados consensos gerais não passam uma opinião simples aplicada – e acatada – por todos, vezes por fraqueza, vezes por ignorância, certas vezes apenas por medo. Porque aqueles que se abstêm da linha de pensamento da maioria sempre serão vistos como a escória, sendo que, na verdade, são justamente o contrário. A dúvida traz a diferença, e a diferença traz a evolução.
A opressão contra os que são diferentes – uma característica marcante da humanidade através dos séculos – ocorre por um único motivo: medo. Temos quase que por hábito temer aquilo – ou quem – desconhecemos. Uma atitude relevante de auto-preservação, mas que atualmente é obsoleta, pois é mais do que impossível manter um padrão de pensamento quando a informação excessiva muda milhões de opiniões em questão de segundos. Tudo é rápido, tudo é mutável. Mas, ignorando fatos indubitáveis, ainda remanescem aqueles que insistem em perseguir aquilo que não entendem e, consequentemente, temem. Oprimem com as armas que têm, atacam com as palavras que ainda restam. Inútil, porque mesmo uma personalidade fraca munida de opinião mutável e caráter fraco, manterá sua essência. O âmago humano, individual a cada indivíduo, é a única parte eterna que possuímos.
Tendemos a nos agarrar a banalidades para tentar ignorar os fatos que cercam de nossas vidas. Mais fácil fechar os olhos do que suportar a dor causada por um mergulho mais fundo na realidade, que é cruel, fria, cinzenta, um lugar aonde não há piedade e nem compaixão; a única coisa que você pode esperar da realidade é a decepção. Então ninguém mentalmente são vive na realidade; cada um vive em seu próprio mundo, criado a partir de percepções concisas e dispersas da verdade real. Abrigamos-nos em casulos feitos por nós mesmos, na tentativa de apagar aquilo que jamais vimos.
Nesse emaranhado de sombras e imprecisões, a lei das projeções reina absoluta. Tudo o que vemos, apreciamos, amamos e louvamos não passam de projeções feitas por nossas falhas percepções, imagens agradáveis provindas do nosso mais profundo desejo interior. A realidade já não importa; apenas aquilo que aproveitamos dela. Tornamo-nos especialistas em crer, viver, respirar nossas ilusões. E, se por um infeliz acaso, um dia acordamos, não estaremos mais preparados para suportar aquilo que realmente há. Para nós, a ilusão tornou-se tão forte que se sobrepõe à realidade, dispersando qualquer possibilidade de uma compreensão mais profunda sobre qualquer uma das duas. Tornou-se confuso ser confuso, complexo ser complexo. O que nos resta é acreditar tão profundamente que realmente há uma luz na escuridão que, no final das contas, irá parecer que sempre houve uma luz na escuridão. Não basta crer; é preciso acreditar com tamanha veemência para tudo deixar de ser uma crença e se tornar uma realidade. É isso que nos resta, quase que um último suspiro de esperança, sem manual de instruções nem idealização profunda.
No final das contas, nunca passou de uma questão de saber usar sua ilusão.

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