domingo, 17 de outubro de 2010

Fear of the dark

É uma sexta-feira, à noite. O céu, quase sem nuvens, é adornado por uma grande e iluminada lua cheia. O vento gelado sobra incessantemente sobre o seu rosto, parecendo dilacerá-lo. Toda a rua se mantêm em um silencio sepulcral, somente quebrado pelo assombroso uivo dos cães.
Você caminha sozinha pela rua escura. Faltam, exatamente, dois minutos para a meia-noite. As sombrias silhuetas das árvores parecem se transformar em grandes tentáculos, prontos para te agarrar. As sombras dançam à sua frente, confundindo sua mente, te fazendo perder noção do que é ou não real.
Você para. Era tudo uma ilusão. Por que você teve essa impressão? Será que foi o seu medo? Você faz essa pergunta a si mesma. “Que bobagem”, pensa. Continua. Sua respiração começa a ficar mais forte, mais rápida. Uma estranha névoa paira sobre os seus pés. De onde veio essa névoa? Não deveria haver névoa a essa hora da noite...
De repente, você ouve um barulho. Olha rapidamente. Não vê nada. “Isso deve ser coisa da minha cabeça”, pensa. Segue em frente. Novamente, você ouve algo. Olha assustada. Nada. Você tem a estranha sensação de estar sendo seguida. O sangue começa a correr rápido. Você acelera o passo. Sua respiração fica cada vez mais forte. De repente, um estranho grunhido. Você olha, por impulso. Na verdade, você não queria olhar, com medo de efetivamente ver algo. Novamente, nada. Você acelera ainda mais seus passos, chegando a quase correr.... Você percebe que está perdida.
O medo toma conta do seu ser. A névoa, agora espessa, e intensa, confunde os seus sentidos. Você não sabe aonde está, não sabe para onde correr, não sabe o que te persegue. De repente, um novo grunhido. Você vê dois grandes olhos brilhantes na neblina. O terror toma conta da sua mente. Você começa a correr, sem sentido, em direção ao nada. Você ouve a besta, faminta, te seguindo em meio à escuridão. É como um pesadelo se tornando realidade. Você percebe que está sem saída. Tenta correr pra outro lado. Tenta correr para todos os lados. Já é tarde demais. Suas pernas já não respondem mais aos seus comandos. Você olha para trás. Os dois grandes olhos cintilantes estão lá, te olhando, do mesmo modo que um predador olha uma presa. Suas pernas cedem, e você cai. Você desesperadamente começa a se arrastar, tentando fugir, tentando salvar sua vida. Um muro te para.
Os olhos. Eles te olham. Você grita, o mais alto que pode, esperando ser ouvida por alguém. Não sai nenhuma palavra de sua boca, somente gritos, apavorados, de alguem que está tentando, futilmente, sobreviver. Grandes garras e dentes começam a sair da neblina. Seus gritos cessam. Você está tão apavorada, que não consegue mais nem gritar. Um ultimo, e aterrorizante grito sai dentre seus lábios. Você fecha os olhos, esperando que tudo seja só uma ilusão. Você se pergunta se voltará a ver sua família, se voltará a ver seus amigos... Se voltará a ver o sol... A resposta é escrita com seu sangue, na agora vermelha rua.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

She loves you

O relógio parecia estar em uma disputa pessoal comigo, porque as horas pareciam se arrastar lentamente nessa noite. Não que o jantar estivesse ruim; ao contrário, a comida estava deliciosa. E nem porque a companhia era desagradável – eram todos amigos, e minha namorada, que agora segurava docemente minha mão, sem dúvida me amava. Mas eu me sentia no lugar errado. Fora de sintonia, talvez. Enquanto todos os risos eram verdadeiros, o meu era falso. Enquanto toda a felicidade cintilava, a minha era opaca. Sentia-me em um jogo de cartas marcadas, aonde não importava como eu me sentia; a única coisa importante era que eu estivesse lá.
Cecília, minha namorada, desvencilhou-se de suas amigas e virou seu rosto para mim:
- Tudo bem com você, Marcos? – Como eu seria capaz de magoar aqueles olhos verdes cheios de bondade que me fitavam? Menti.
- É claro, querida. – Esbocei um sorriso qualquer, e continuei – Eu só estou um pouco cansado, nada demais.
Ela pareceu aliviada, e então se voltou para a ininterrupta conversa que a envolvia. Daniel, namorado de Cristina, melhor amiga de Cecília, fez algum sinal incompreensível para mim. Notando a minha falta de entendimento, aproximou-se.
- Ei cara, vamos lá para a sala. Você deve estar ficando louco cercado por todas as garotas aqui. – Todas elas riram, e eu por obrigação, também. Não é que eu desgostasse Daniel e todos os outros namorados-das-amigas-de-minha-namorada, mas eles não eram meus amigos. Cecília parecia não compreender isso. Entretanto, eu seria um monstro se levasse tristeza àqueles olhos verdes, então só seguia e fazia, sem pensar muito.
A lasanha estava gostosa, mas o prato que eu deixava para trás estava quase cheio. Eu não tinha muita fome. Nunca gostei de jantares em grupos, sempre hipócritas, e meu apetite parecia se afetar com isso. Todos os “garotos” estavam na sala de estar, a apenas alguns passos da cozinha. Até era possível ouvir as conversas de ambos os grupos se cruzando. Mas ninguém, fora eu, pareceu se importar. William, novo namorado da pior amiga de Cecília, cumprimentou-me.
- Você continua caladão, Marcos.
- Melhor ficar de boca fechada e todos pensarem que você é idiota, do que abrir para todos terem certeza. – Ele levou um tempo para entender, mas depois riu alto. É uma indireta, seu idiota.
- Me pegou nessa. Fala aí: fiquei sabendo que você trabalha em uma revista de mulher pelada. É sério?
- Na verdade, são só fotos sensuais. Eu só escrevo artigos e...
Nunca terminei a frase. Gabriel, amigo de longa data de todos ali, uma pessoa por quem eu tinha anormal empatia, entrou na sala. Isso não seria grande acontecimento, se não fosse ele estar acompanhado por ela. Ela. Aquela por quem eu tinha rido, chorado, gritado, lutado, desistido. Carol, minha ex-namorada, agora vinha em minha direção de mãos dadas com Gabriel. Destino, seu filho da mãe, o quê eu fiz para você?
Ela manteve-se deslumbrante. Esses muitos meses pouco haviam mudado nela. Os cabelos cor de mel continuam lisos, brilhosos. Seus olhos castanhos continuam límpidos, misteriosos. Carol estava mais Carol do que nunca.
- Opa pessoal, essa é Caroline, minha nova namorada. Carol, esses safados aqui são William, Daniel, Carlos e Marcos.
Eu estava atônito, absoluta e indiscutivelmente paralisado.
Ela, entretanto, pareceu completamente ilesa a mim. Eu acredito que ela vacilou, apenas um pouco, quando ouviu meu nome e notou meu rosto. Nada mais. Carol sempre foi tão forte, então não seria agora que hesitaria.
O sofá rangeu no espaço vazio ao meu lado. Cecília havia se sentando lá, e agora seus braços me envolviam em um displicente abraço. Seus olhos verdes me olhavam atentos, e logo perceberam minha tensão.
- Amor, tem certeza que você tá legal? Está parecendo tão estranho...
Eu não respondi. Só a beijei sem emoção na face, e então segurei sua mão com força. Sabia que seria o suficiente, e para minha felicidade, foi. Não aguentava discussões com Cecília: ela era tão doce, tal ingênua, inocente, impunível.
Procurei Carol, que agora estava abraçada em Gabriel. Abraçada da mesma maneira que ela, há não muito, me abraçava. Duas opções: ou ela me ignorava com notável habilidade, ou ela realmente não importava com minha presença ali. Droga, por que Gabriel tinha que encontrar justo com ela? Por que ela tinha que aceitar que sair com ele, e pior, namorá-lo? E o mais importante: por que eu tinha que, mesmo depois de tudo, amá-la com todas as fibras do meu ser?
A noite ia vagarosamente, e a alegria do recinto também. Risos, palmas, piadas, tudo não passava disso. Espera: havia também uma Cecília que me abraçava, que me amava, e uma Carol que agora me ignorava, de mãos dadas com Gabriel. Meu coração ainda batia forte por aquela garota de olhos misteriosos e sorriso estupendo. Não que eu não amasse Cecília; eu era apaixonado por ela, mas não da mesma maneira. Não da forma maluca, inconsequente, incoerente, impossível que eu era por Carol. Maldita garota perfeita.
Carol levantou-se, e foi até a cozinha, não sem antes dar uma piscadela discreta para mim. Meu coração bateu forte, como há muito não fazia. Dei uma desculpa qualquer à Cecília, e então segui a garota que odiava e amava. Ela escrevia febrilmente em um papel, que me entregou, sem dizer uma palavra. Lá havia oito números e a silenciosa letra “C.”. Ela foi mais rápida do que eu, e já estava de volta aos braços de Gabriel quando eu finalmente notei o quê havia acontecido. Ah, garota, por que você tem que brincar dessa maneira comigo! Salvei o número em meu celular, e voltei à sala, puxando Cecília para mim com meus braços. Ela sorriu.
Gabriel e Carol levantaram-se para sair, e após cumprimentar a todos, foram-se, com Carol sorrindo de forma travessa em minha direção.

Depois dessa noite, Carol nunca mais sairia de minha vida, e nunca mais da dela, por eternos meses. Pobre Cecília, com seus olhos verdes inocentes, que nunca foram capazes de ver o que estava mais do que visível. Eu fui um monstro, eu sou um monstro, eu eternamente serei um monstro. Culpa de Caroline, apenas e exclusivamente dela. Maldita garota perfeita.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Starway to heaven

A água era fria. A garota deixava-a cair por seu cabelo, descendo com fluência por todo seu corpo. Ela estava de olhos fechados, respirando, pensando. Ficou por mais de cinco minutos com a água percorrendo toda sua existência, levando consigo seus pensamentos, suas dores, sua angústia. Agora ela chorava levemente, lentamente, pequenas gotas peroladas escapando de seus olhos, escondendo-se na imensidão da água que corria livre. Por que a água fria está tão quente?
O cheiro era doce. Ela agora olhava para o espelho a sua frente, seus cabelos castanhos quase negros por estarem molhados. Ela não sentiu a mínima vontade de secá-los, de penteá-los, de nada. Quis manter-se quieta, estável, e assim fez. Secou-se sem vontade, nem esmero. Sentiu a maciez do algodão tocar sua pele, beijando-a com lentidão, com carinho. O espelho estava embaçado agora. Ela lembrou-se de quando era criança e escrevia sem hesitação em espelhos embaçados. Seus dedos deslizaram de lá para cá, e em questões de segundos, um nome pairava na face do pequeno espelho. Apenas um nome. Lágrimas, lágrimas, lágrimas. Por que as lágrimas estão tão frias?
A cama estava quente. Ela estava deitada, olhos no teto, fones no ouvido, pensamentos fora da cabeça. Ela sentiu-se só. Pela primeira vez em muito, muito tempo, ela sentiu-se absolutamente só. E a solidão era mais quente que o cobertor que a cobria. A solidão a consumia tenramente, sem piedade, mas com delicadeza. Que outra opção teria ela a não ser deixar-se perder naquela companheira indesejável? Ela não tinha chances. Por que a noite é sempre tão vazia?
O dia estava nascendo. O sol parecia tímido em seu primeiro cintilar, os primeiros raios fazendo a garota despertar. Mesmo com os olhos abertos, ela manteve-se deitada, imóvel. Ela não soube o que pensar, o que fazer, o que esperar. Mesmo desejando ardentemente dormir o resto do dia, da vida talvez, levantou-se em um pulo ágil, e então se arrastou para o banheiro. Ela não desistiria de sua vida, de forma alguma. Não daria a ele tal prazer. Ela seria feliz, nem que isso custasse cada fibra de sua existência, cada vigor de seu ser. E ela lutaria por sua felicidade até o último suspiro. O nome dele ainda estava marcado no espelho, pálido, mas ainda visível. E na memória da garota, de forma indelével. Por que ferimentos deixam tantas cicatrizes? A vida continua dura. Embora o mundo pareça ter acabado, ele segue sem pausas, sem folgas. E o mundo não teve pena da garota. Muito a ela impôs, muito dela cobrou. E por incrível que pareça, ela não desistiu; havia prometido que não o faria. Até que um dia sua perseguição pela felicidade foi recompensada: ela finalmente estava feliz. Não radiante, não estupenda, apenas feliz. Alegria que veio na forma de um abraço amigo, de um beijo roubado, de um riso imprudente. Das épocas difíceis, agora só resta cicatrizes, que mesmo eternas, ainda são esquecíveis, ignoráveis.

domingo, 3 de outubro de 2010

Little Sister

O calor do seu corpo parece queimar a sua roupa enquanto ela dança. A vibração do seu corpo é tão intensa que você consegue senti-la, percorrendo todo o seu corpo. Sua pele morena, queimada pelo sol. Seus longos e lisos cabelos loiros. Ela simplesmente te leva a loucura. Seu corpo escultural, perfeitamente... perfeito. E o modo como ela dança, com seu justo e suado vestido de seda. A vibração dela parece o mais louco show de rock.

Seu corpo parece uma guitarra, perfeitamente afinada. Suas curvas parecem cordas, que tocam ácidas e harmoniosas notas, no ritmo de sua dança. Sequências bem ritmadas de notas altas e intensas. Simples, como um bom e velho punk rock. Etéreo, simbólico, como um bom metal. Yeah! Ela destrói sua mente, sua humanidade. Te faz querer quebrar tudo, e todos. Te faz querer pular, gritar, dançar...!

Ah! Irmãzinha... ... Ainda me lembro quando brincávamos juntos. Lembro que fui eu quem te deu esse apelido, “irmãzinha”. Você era pequena, e frágil. Tudo que eu queria era te proteger. Você era a irmã mais nova, que eu sempre quis, e nunca tive. Há! É engraçado! Estamos cometendo o mais pervertido dos pecados. Mas dane-se!! Isso é tão bom... ...!

Suas quentes mãos atravessando meu corpo, queimando minha pele. Sua boca macia, seus lábios vermelhos. Sua língua molhada, dilacerando minha pele, queimando meu rosto. Seu beijo ardente, como um beijo de uma garrafa de whisky, que desce minha garganta, queimando todo o meu corpo por dentro, me fazendo explodir de tesão, me fazendo perder o controle. Seus cabelos caídos sobre meu peito. A bateria violenta do Rock, as notas rebeldes e agressivas das guitarras. Toda a galera pulando, no meio da insana “roda punk”. Baldes de adrenalina correndo nas minhas veias, disputando lugar com litros e litros de álcool. Sangue não tem mais lugar ali. E as letras, que entram na sua mente, e te fazem delirar de um modo que só você entende. No meu caso, toda a música se resumia a uma palavra, dita bem baixinho, no meu ouvido: “Irmãozinho”... ...

Finalmente, chega a ultima música. A melhor, e mais curta do show. Mas o tempo não corre. .. Você entra num estado de semi-transe, onde o tempo simplesmente parece mover-se, aleatoriamente, de um lado para o outro, mas, ao mesmo tempo, sem sair do lugar. Enfim, o ápice do show. A ultima nota. Delírio... Somente.

Eu e minha irmãzinha, ali, deitados lado a lado. Só o que sobra é o êxtase extremo, que só se sente no final do show. A respiração ofegante, as pernas trêmulas, resultantes das imensas doses de adrenalina. E a incessante sensação de “quero mais”. Mas o show não acabou realmente, não é? É hora do “encore”!!

sábado, 2 de outubro de 2010

Beautiful loser

Uma queimação anormal percorreu-lhe todo o corpo: era a dor da despedida. Olhou, mais uma vez, para o mar de rostos que o observavam, aflitos, confusos. Quis lutar. Gritar. Chorar. Correr. Não fez nada disso. Apenas permaneceu parado, olhando. E morrendo, pouco a pouco.
Sua mochila pesava, e o calor do sol o fazia suar. A rodoviária era cinzenta e barulhenta, com pequenos pedaços de história a cada canto. Eles vieram em bando, desajeitados, como de costume. Uns sorriam, outros se mostravam sérios, mas todos sentiam a mesma coisa: a perca. É difícil perder um membro do grupo, um irmão do clã; é difícil perder um amigo. O garoto com a mochila olhou para todos, um a um, e sentiu instantaneamente um aperto no coração. Quis ficar, mas não podia. Quis fugir, mas não podia. Quis parar, mas não iria.
Então abraçou cada um de seus amigos, recebendo tapinhas nas costas ou socos de amizade, sempre recebendo frases como: “se ficar sem dar notícias, te mato, seu safado!”, “vê se voltar para encher a cara com a gente de novo!”, ou, simplesmente, “vou sentir tua falta, cara.”. O garoto sentiu-se feliz, alegre simplesmente por saber que havia pessoas que sentiriam sua falta: seus amigos.
O momento crucial, que ele tanto adiara chegou.
Ela se aproximou, cada tortuoso passo executado com lentidão. Ele controlou o impulso das lágrimas, e então a abraçou. Segurou-a com tamanha força que duvidou que fosse capaz de um dia soltá-la. Deixou perder seu rosto nos cabelos dela, cujo cheiro era delicioso. Ouviu uma cobrança, fez uma promessa:
- Nunca se vá, entendeu? Não importa quanto tempo fiquemos sem nos falar, ainda quero morar aqui – e então apontou para o peito dele, bem no coração.
Ele nada disse. Apenas acenou com a cabeça, e lutou contra as lágrimas mais uma vez. A garota beijou seus lábios, e soube que seria a última vez. Ela sempre soube.
- Eu te amo – disse ele, finalmente. Nada mais. E essas palavras ficaram entre os dois, apertando-os muito mais que um forte abraço. Gotas peroladas agora desciam pelo rosto corado da garota, que com graciosidade, beijou-lhe apenas mais uma vez, e então se foi.
Ela já estava de costas, a alguns metros de distância, quando ele chorou silenciosamente pela primeira vez em anos. Ninguém viu. O garoto entrou no ônibus imponente a sua frente, sabendo que a partir do momento que ultrapassasse aquela porta, muito ganharia, muito perderia. Não hesitou.
O ônibus já saia quando o garoto olhou pela janela uma última vez, com apenas um desejo: encontrar os olhos da garota, nem que seja pela última vez. Eles não estavam lá.