quarta-feira, 30 de junho de 2010

Sentidos

Como há muito não fazia, seu silêncio calou-me. Não foi preciso palavras para especificar aquilo que ali, entre nós, acontecia. Ouvi de teus olhos tudo aquilo que precisava escutar; cada palavra insinuante nunca antes dita agora cintilava com clareza perante mim. A falta de som não era incômoda, longe disso: criava entre nós uma conexão que transcendia toda e qualquer compreensão de relacionamento. È isso que éramos, isso que somos: a peça que falta na vida um do outro, ambos com o mesmo pesado fardo de jamais poder completar este vazio.
Então a sua mão veio até a minha, e por ela a doce corrente de plenitude em minha alma entrou. Meu dedo deslizou, sorrateiro, por sua pele macia, e eu senti a cada jaça perfeita que em você existe. Macio, tenro, quente, seu corpo não era apenas convidativo para mim; ele clamava por meu toque, e eu, obedientemente, acatava com prazer. A cada novo tom distinto que notava em você, ficava mais certo de que era errado estar certo sobre você; não há maneiras certas de dominar a idealização do perfeito.
Quando seus lábios úmidos, trêmulos, vieram até os meus, tomei consciência de seu inconfundível odor adocicado, e vi que ele continua o mesmo que antigamente. E seu cheiro trouxe a mim tantas lembranças! Tardes ensolaradas que nunca acabaram, conversas longas e repetitivas que nunca começaram, medos e angústias que nunca existiram. Seu perfume doce, profundo, calmo, parecia pregar uma peça em mim; embaralhava tudo em minha mente, confundia tudo em meu corpo. O entendimento de que esse momento acabaria em dor – como sempre acabou – atacava-me, mas eu ainda tinha esperança de que o sabor de seu cheiro permanece em mim para a eternidade. Talvez...
O gosto de seu beijo, fluente, exaltava-me. Embora uma onda de sentido e sentimentos por mim passasse, era esse gosto que se sobressaia ao demais; inexplicável, inexorável, perfeito. Mesmo tendo conhecimento da finidade do momento, eu não me importava, apenas queria que os poucos segundos que ainda tinha contigo fossem horas, dias, anos, eternidades. Seus lábios acariciam os meus, massageando-me com incomum destreza. Mesmo finito, esse momento tornou-se eterno.
Quando, infelizmente, a eternidade acabou, vi seus olhos a poucos centímetros dos meus. Era estranho como a comum cor castanha ficava tão sintonizada com você, como se você fosse a obra-prima de um talentoso artista. Era um castanho claro, cintilante, tão vivo que chegava a ser assustador, não assustador de uma maneira ruim, mas sim de uma forma boa; assustadoramente surpreendentes. Vi seu rosto, ainda um pouco rosado, e nele tinha sua boca em um sorriso de amor, convidando-me para ser seu, pedindo meu coração. Eu daria de bom gosto, mas como é possível lhe dar algo que já é seu?
Sua voz foi a primeira a ruir o silêncio que já há algum tempo nos cobria. Ela veio como música aos meus ouvidos, trazendo-me tamanha satisfação que refleti como uma coisa tão simples como a sua voz podia ser tão reconfortante para mim. Tomei por conclusão que até as coisas mais singelas, quando ocorrem na hora certa com a pessoa certa, tornam-se momentos especiais.
“Vamos?” – Questionava sua voz, serena, a mim.
“Vamos.” – Disse a minha, um pouco mais que um sussurro grave, mas você entendeu. E lá fomos nós, sorrindo, talvez ainda anestesiados pela explosão de sentidos que acabamos de sentir, ou talvez apenas felizes por termos um ao outro.

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Primeiro: Foi o seu sorriso... ...

Você está numa festa com os seus amigos. Todos bebem, dançam e se divertem, somente pelo fato de estarem juntos novamente depois de tanto tempo. Você não está pensando em mais nada, somente em se divertir com seus amigos. Mulheres? Nah. Você realmente só quer se divertir com seus amigos!

Entre uma garrafa e outra de cerveja, você resolve ir ao banheiro. Na volta, você passa por duas garotas, que você nunca viu na vida. Uma delas te aborda do nada e manda: “Minha amiga ta afim de ti!”. A amiga dela quase tem um ataque. Entre risinhos e sorrisos disfarçados ela diz: “Ai! É mentira dela!!”.

Bom, esse tipo de coisa não acontece todo o dia com você! Você, inocentemente (e eu não estou sendo irônico) a convida para dançar. Ela diz que não sabe dançar, que não quer, blablabla, enfim... Depois de algumas tentativas ela aceita a dança. Esta, dura somente meia-dúzia de passinhos e acaba. Você descobre que ela realmente não sabe dançar.

Quando você percebe, você já esta há quase meia hora conversando com ela. A bebida te deixa mais extrovertido, e o mais importante de tudo: mais cara-de-pau. Conversa vai, conversa vem, o papo começa a tomar um rumo diferente. A conversa fica mais picante, você dá algumas investidas, ela esquiva, você ataca de novo, ela finge que não quer, e assim vai indo... De repente, você passou a festa toda “trovando” ela. Ela resiste às suas cantadas até o último minuto da festa, e pior: vai embora, sem se render a você. Porém, nesse meio tempo, você consegue algumas informações importantes sobre ela, como seu aniversário (que você esquece 15 dias depois), sua música preferida, sua idade, e o grande prêmio da noite: o número do seu telefone...!

Você também vai embora. Esse foi o melhor dia da sua vida. Você chega em casa morto, e só pensa em dormir. Dormir e dormir. De repente, vem um estalo na sua cabeça. Tec! Você até consegue ouvir. Era ela. Por algum motivo que você não conhece você não consegue parar de pensar nela. O que te deixou tão vidrado nessa garota? Talvez sua beleza? Nãão; ela nem era tão bonita assim. Talvez a inteligência dela? Também não. Dinheiro? Nananana..... Ela tinha alguma coisa, alguma coisa que a diferenciava das outras garotas.

Bom, vamos dar uma resumida: Você não sabe o que ela tem de diferente das outras garotas, mas você sabe que isso te conquistou.

De repente outro estalo. TEC! Aouch! Esse chegou até a doer. Você se lembra que prometeu ligar pra ela. Você se lembra também que não deveria ter prometido ligar pra ela. Tudo bem, você é homem, você precisa fazer isso, é sua missão!!

Enquanto você gasta um bom tempo da sua semana tomando coragem pra ligar pra ela, você recebe a melhor noticia que você já recebeu (e que ainda vai receber) na sua vida: no próximo fim de semana vai ter outra festa, no mesmo lugar, na mesma hora! É certo que ela vai estar lá! E se ela vai, então você vai!

Enfim chega o grande dia. Você está louco pra vê-la de novo. Tão louco que até esqueceu de inventar uma desculpa do por quê você não ligou pra ela.

Putz, e agora!? Você tem somente alguns minutos pra bolar uma desculpa. Oh não, lá vem ela, ela está vindo na sua direção! Rápido, corra o mais rápido possível para a cerveja mais próxima!!



CONTINUA

Capítulo 4 - O livro

Capítulos anteriores:

1°: http://norestforthecursed.blogspot.com/2010/03/capitulo-1-rosa.html

2°: http://norestforthecursed.blogspot.com/2010/04/capitulo-2-voz.html

http://norestforthecursed.blogspot.com/2010/06/capitulo-3-verdade.html

CAPÍTULO 4 - O LIVRO

Meu estado de espírito pode ser dividido, sem dúvida, em dois opostos: com Marian e sem Marian. Com Marian sou tão feliz que nem compreendo; um sentimento único que apenas a presença dela é capaz de trazer. Sem Marian sinto-me vazio, como se estivesse faltando o algo mais importante de minha existência. Com Marian só há uma preocupação: manter-me o maior tempo que puder perto dela. Sem Marian, só há a esperança de poder, alguma hora, estar com ela novamente. Com ela eu sou a melhor parte de mim, a personificação da alegria. Mas já sem ela, sou uma casca vazia daquilo que outrora fui.
Atravessei a porta, com gratidão à Marian por me tirar daquele horrível lugar, e entrei na fria noite. Ela estava sentada no meio fio da calçada, olhando, talvez esperançosa, para a imensidão do céu sobre nós. Havia muitas estrelas, que com seus brilhos transformavam o céu em uma obra de arte. Ao me aproximar dela, senti, de leve, seu cheiro. Um sentimento antigo, reconfortante e incrível dominou-me, e de mim arrancou qualquer infelicidade: eu estava com Marian.
“Perdoe-me, Nathan. Eu não deveria ter pedido para você vir aqui, nesse lugar horrível. Eu só... só queria que você soubesse.”
Ela levantou-se agilmente, e agora estava a poucos centímetros de mim, com seus olhos cravados nos meus; esse olhar tinha tamanha intensidade que a única vontade que eu tinha era abraçá-la e não a largar mais. Mas eu queria – e precisava – saber o que estava acontecendo com o único alguém que realmente valia a pena me importar.
“Eu estou aqui, está bem? Não importa o que digam, o que façam, o que pensem ou o que desejem, eu sempre estarei ao seu lado, sempre!” – Enquanto eu dizia essas palavras com minha voz um pouco desajeitada, colocava minha mão sobre o ombro dela, em sinal de irrevogável apoio. Ela hesitou por um instante, então levantou sua cabeça outrora baixa, e disse num tom absolutamente calmo:
“Você promete que não vai me odiar?”
“Como se isso fosse possível...” – zombei eu, mas em seu sou rosto não havia o mínimo sinal de graça; lá só existia medo.
“Prometa, por favor!” – Olhava-me agora esperançosa, esperando que eu atendesse sua prece, que eu, é claro, atendi.
“Eu prometo que não importa o que você me diga, eu continuarei lhe amando na mesma proporção, pois é isso que eu faço, é isso que eu sou: eu te amo.”
E lá em sombrio rosto apareceu algo que há muito eu não via: seu cintilante sorriso, capaz de ofuscar até a mais sombria das escuridões.
“Eu te amo, Nathan.” – Então ela se sentou no meio-fio da calçada, e de lá, com uma voz pura e contínua, começou a contar sua história:
“Sabe, eu e Sara somos primas. Quando crianças, éramos tão juntas que nos considerávamos irmãs de verdade. Mas crescemos, e com o tempo, cada uma foi tomando seu caminho, e nos distanciamos muito, a ponto de mal nos falarmos por meses. Então, há mais ou menos seis meses atrás, nós voltamos a nos falar. Mas Sara estava tão diferente... ela estava má, cruel. Não era, nem de longe, aquela garota que eu tinha tanto afeto. Então eu decidi investigar o que realmente estava acontecendo com ela. Sara não dizia nada com sentido quando eu a indagava; só falava que era por causa de um ex-namorado, que tinha feito algo horrível com ela. Mas Sara jamais se aprofundava demais no assunto, nunca mesmo. Eu pensava: “Será que ele a deixou doente, grávida, alguma coisa desse gênero?”, mas no fundo eu sempre soube que era alguma coisa pior, muito pior. Então, em um dia que ela estava viajando, fui até sua casa e arrombei seu quarto. Revirei tudo, e em uma caixa rosa de madeira – caixa que desde a época de criança foi seu esconderijo secreto – estava um livro muito antigo. Tinha capa verde num tom amarronzado e opaco, talvez por conta da velhice. As páginas eram amarelas e manchadas, e dele saía um cheiro horripilante. Na capa tinha uma estrela de cinco pontos, um conhecido símbolo de ocultismo e magia, sabia eu. “Magia e ocultismo?”, eu pensei, que coisa mais insana. Por que diabos Sara estaria escondendo um livro daqueles? Peguei o estranho manuscrito e levei para minha casa. Foi aí que tudo começou.”
A voz de Marian estava agora embargada, carregada. Sentei-me ao seu lado, e a coloquei em volta dos meus braços, enquanto meus dedos limpavam as lágrimas que insistiam em sair de seus olhos. Embora toda aquela história fosse muito estranha, não havia nenhum vestígio de dúvida; tudo aquilo era a verdade, uma incômoda verdade. Após suspirar longamente, ela continuou:
“Eu nunca fui de acreditar no sobrenatural, como você sabe. Achava que as crendices populares eram histórias, só isso. Mas aquele livro... tinha algo maldito nele. A primeira noite que passei com ele escondido em meu quarto foi certamente a mais horrível de minha vida. Pesadelos, vozes, sentimentos... coisas realmente sinistras. No outro dia, ainda aterrorizada, fui devolvê-lo à Sara. Esse foi o pior dia da minha existência. Quando contei a ela que tinha levado o livro de seu quarto, vi ela ficar tão branca que pensei que ela fosse um fantasma. Ela me contou a verdadeira história daquilo que eu acreditava que fosse apenas um livro. Mas...”
A voz de Marian hesitou. Eu estava realmente assustado com tudo aquilo, mas eu sabia que contar toda essa história estava sendo incompreensivelmente dificíl para Marian. Quando fui abrir minha boca para perguntar a ela se estava tudo bem, um fato me constatou que não tinha nada bem: eu tinha uma branquíssima Marian em meus braços, desfalecida, com estranhas faixas negras outrora inexistentes em volta de seus pulsos, e nela, para meu terror, não havia nenhum sinal de respiração.

domingo, 27 de junho de 2010

The Dark Side Of The Moon

“The touch of your hands says you’ll catch me wherever I fall...” (http://migre.me/SGzo)

É reconfortante saber que haverá alguém disposto a lhe pegar, não importa o quão fundo você caia. Essa ideia não torna a queda menor, nem mais rápida, menos dolorosa; só traz uma tênue linha de esperança que, quando finalmente você chegar ao chão, existirá um alguém pronto para lhe levar para cima novamente. Isso nos ajuda a seguir em frente, pois mesmo toda a queda sendo dolorosa, talvez haja esperança após o fim.

“I know you’re leaving in the morning, when you wake up, leave me with some kind of proof it’s not a dream...” (http://migre.me/SGA0)

Nunca estaremos prontos para a perca de algo que realmente amamos. Não importa o quanto achemos que estamos, no fundo todos sabem: não estamos. E, muito menos, estamos prontos para fazer uma substituição. Até mesmos os crentes da teoria que tudo e todos são substituíveis devem admitir que mesmo lutando contra todas as lembranças, sempre haverão cicatrizes, mesmo que minúsculas, para lembrar-nos que um dia, mesmo que há muito tempo atrás, houve um alguém. E às vezes é preciso ter algum tipo de prova para saber que tudo não foi apenas um sonho – ou pesadelo.

“Maybe there's a God above, but all I’ve ever learned from love, was how to shoot someone who outdrew you...” (http://migre.me/SGAk)

Acreditar que tudo que acontece sobre nós só ocorre por conta de uma interferência divina é a válvula de escape perfeita, o uso mais adequado para um bode expiatório indefensável, inexistente. O mais fácil, quase que por regra geral, seria desconhecer. A falta de compreensão, ao contrário do que muitos desavisados pensam, é uma dádiva, não um fardo. O amor, além de felicidade e tristeza, satisfação e dor, pode nos trazer um pequeno ensinamento; se apaixonar por alguém é como atirar em alguém que te desarmou.

“I want to know, have you ever seen the rain, comin’ down on a sunny day?” (http://migre.me/SGAI)

Você já viu uma gota de tristeza ousar cruzar o caminho de uma onda de indiscutível felicidade? Mesmo se ele tivesse se atrevido, teria sido inútil; seria sucumbida tão rapidamente que realmente não faria a menor diferença. Lutar contra o inevitável é tão inútil quanto respirar em um lugar sem ar. Mais fácil é desconhecer – ou fingir – que nada nunca aconteceu, para, quem sabe, haver um outro dia ensolarado.

P.S.: A lua não tem nenhum lado negro, pois ela inteira, por si só, é apenas escuridão.

...

segunda-feira, 21 de junho de 2010

I Hate Valentine's Day

Sem dúvidas, as emoções, assim como apresentadores decadentes ou contadores pilantras, gostam de pegar peças conosco. Quem aqui que nunca fez coisas que não deveria por emoções baratas que envie o primeiro spam! O meu ponto é: já que são inevitáveis, que tal dar uma risada invés de desperdiçar uma lágrima por elas?
Embora este texto esteja mais de uma semana atrasado, o enfoque principal – por conta do dias dos namorados – será o líder fascista das emoções: o amor. Tema preferido de cantores sem talento, cartões de livrarias de quinta e videntes duvidosas, o amor sempre esteve, e estará, presente em nossas vidas. Mas, na real, o que é o tão falado, discutido, sentido e maltratado “amor”? Bom, definir o que “é” é bastante complicado, mas tentarei explicar o que “não é”.

Amor não é sentir frio na barriga: isso é sair de babylook no inverno. Amor é outra coisa.
Amor não é estar confuso sobre várias coisas: isso é estar bêbado. Amor é outra coisa.
Amor não é só poder ver uma pessoa: isso é ter miopia. Amor é outra coisa.
Amor não é sempre ter alguém ao seu lado: isso é ter um irmão siamês. Amor é outra coisa.
Amor não é se sentir a pessoa mais especial do mundo: isso é ser egocêntrico. Amor é outra coisa.
Amor não é se declarar a alguém: isso é pagar o imposto de renda. Amor é outra coisa.
Amor não é transformar o impossível no possível: isso é sobreviver com um salário mínimo. Amor é outra coisa.
Amor não é fazer coisas que os outros não entendem: isso é ser um idiota. Amor é outra coisa.
Amor não é fogo que arde sem se ver, nem ferida que dói e não se sente (http://migre.me/R6sU): isso é passar remédio em um machucado. Amor é outra coisa.
Amor não é fazer provas incompreensíveis: isso é estar no colégio. Amor é outra coisa.
Amor não é passar o resto da sua vida com a mesma pessoa: isso é estar na prisão perpétua. Amor é outra coisa.
Amor não é escrever um blog: isso é ser um total desocupado. Amor é outra coisa.
(Continua...)

sábado, 19 de junho de 2010

'Cause we're TNT, we're dynamite, TNT, and we'll the fight

Àqueles que estiveram, estão e estarão lá comigo, não importa a ocasião

“Só mais um gole, cara!” – A voz que vinha até mim parecia ter ecoado através de mil universos, mas no final das contas era apenas uma voz amiga, bem a minha frente, me encorajando a fazer algo que minha decência inibiu. E eu, sem ao menos lutar, a obedeci.
O gosto pungente da bebida descia selvagem pela minha garganta, trazendo consigo fogo e gelo, dor e paz. Minha mente já não estava comigo; estava muito, mas muito longe, num perigoso jogo de esconde-esconde, do qual o prêmio final seria minha consciência.
Abri meus olhos, e as luzes dançavam perante mim, disformes e incompreensíveis, a cada instante parecendo cintilar mais. Então eu sorri. Havia mergulhado em um mar de serenidade e calmaria, e de lá não gostaria de sair, ao menos não tão cedo.
Em minha boca ainda imperava o gosto de tabaco barato, ainda que o sabor do álcool causasse uma batalha ferrenha de sentidos, em mim. Tão confuso e tão claro, tão complexo e tão simples; não havia – e momentaneamente pareceu – que nunca houve espaço para infelicidade.
A sombra da noite decaia solenemente sobre as faces sorridentes de meus amigos. Sorri novamente, apenas para reafirmar aquilo que eu já sabia: estava no lugar certo, com as pessoas certas. Àquela altura, o mais perfeito era o conhecimento da opção de nada jamais acabar.
“Só mais um gole!” – E o mantra gerou uma onda de ações já premeditadas: copos cheios novamente, e num golpe sincronizado, todos ingeriram o líquido que a todos trouxe felicidade.
A chuva fina que caia naquela noite formava uma pequena camada brilhante sobre todas as superfícies, até sobre os bagunçados cabelos de meus companheiros de boêmia. Até sobre o casaco preto que em meu ombro insistia em ficar, não importava o quanto eu balançasse.
“Só mais um gole!” – As sentenças injuriadas, as piadas não entendidas, as promessas ditas, as concessões feitas; um corpo dormente, um olhar embaçado, uma mente voando, um copo quebrado.
“Só mais um gole!” – O momento era perfeito, a noite era perfeita, o mundo era perfeito, a vida é perfeita. Sem excessos, nem exceções. No final das contas, só queria, e só precisava, de mais um gole.

A Costa Oeste tem o Blues

Arrastei-me, com a minha caveira cheia de canha canalha para jogar umas palavras deconexas nesse ilustre blog, fruto de um brilhante cara que 3 por 4 me oforece um copo de whiskey.
J.S.
Obrigado pela segunda oportunidade de escrever aqui. Saiba que me sinto lisonjeado.
Então, minhas apresentações, sou um garoto de cabeça musical.
Estive por aí por muitos, muitos anos
Roubei a alma e a fé de muitos homens

Estava por perto de São Petersburgo
Quando vi que era a hora de uma mudança
Matei o Czar e seu ministros
Anastácia gritou em vão

Montei em um tanque
Mantive a posição de General
Quando a guerra relâmpago estourou
E os corpos federam

Prazer em conhecê-lo
Espero que adivinhe meu nome
Mas o que está te intrigando
É a natureza de meu jogo
(Quem? Quem?)

Felizmente, não sou o capeta, mas meu gosto musical sempre me levou para o lado que os avós sempre olham torto. E uma dessas ramificações musicais se desenvolveram do, oh meu deus, o blues! Sim, essa súplica, esse desejo que corrói por dentro, o nome tristeza para o blues, as palavras sôfregas de gente negra e de gente branca, de BB King com o Eric Clapton, o Muddy Waters e o pai de toda a musicalidade suja e alcolátra: o Robert Jonhson, que mesmo com uma vida curta, tocava solitário seu violão de forma fenomenal, nas remotas épocas dos anos 20.
E que musicalidade se lança por sobre o ar... Uma gaita de boca, um violão rachado, e amizades que vivem penduradas em garrafas e em dias abafados.
Eu nunca visitei São Francisco, nem Nova Orleans, mas essas musicas me remetem coisas boas, e fazem parte da trilha sonora da minha vida, e que gostaria de compartilhar com todos por aí, noite afora.

É um corte de faca com fio, sim, mas vamos dar a lambida nessa faca, e não fazer a grandilissima pau no cuzisse de não comentar nesse blog, de tirar tudo que se tem de bom das palavras do escritor, de deixar a mente vagar sem preocupação...

Lembranças aos associados de olhos nos tornozelos.
Aqui o mundo silencia.




terça-feira, 15 de junho de 2010

Capítulo 3 - A verdade

Após pedido, voltarei a escrever um conto que há muito começei a postar aqui no blog. Aqui está o capítulo três. A propósito, comentem! Cada comentário, crítica ou elogio, é de extrema importância para mim. Links dos capítulos anteriores:
1° capítulo: http://norestforthecursed.blogspot.com/2010/03/capitulo-1-rosa.html
Capítulo 3 - A verdade
Enquanto meus dedos corriam com delicadeza por toda sua face, Marian tentava, inutilmente, arrumar meu cabelo. Seus olhos estavam fechados, e de si emanava uma felicidade que só era superada pela minha. E ainda lá, em seu rosto, se encontrava esculpido o seu sorriso único, que eu, com satisfação, estraguei beijando seus lábios. Não sabia onde estávamos, como lá chegamos, e há quanto tempo assim ficaríamos. E, sinceramente, não me importava; eu tinha a ela, e ela tinha a mim, e para ambos de nós, isso já era o suficiente.
Subitamente, comecei a sentir uma estranha sensação, algo parecido com um desconforto qualquer. E a cada instante ia ficando mais e mais forte, até que, incompreensivelmente, a voz de Marian soou em meus ouvidos, mesmo com ela não abrindo sua boca: “Acorde!”, dizia a voz. Eu não entendi. Será que eu estava maluco? Não queria estar sentindo aquilo ou ouvindo aquela voz, não queria! Mas, na mesma proporção que eu não a desejava, ela ficava mais forte. “Acorde!”, ouvi novamente. Só então eu percebi, e para mim pareceu que eu sempre soube. “Acorde!”, ouvi pela última vez, e obedeci. Agora eu estava sendo balançado por Marian, que tinha medo estancado em seu olhar.
“Graças a Deus que você acordou, Nathan!” – Agora ela me levantava, eu meio grogue, e me segurava em um forte abraço. Ela não parecia nem de longe a Marian de meu sonho; estava pálida, com olheiras profundas, cabelo um pouco bagunçado, mas o que mais chamava atenção era o intenso medo contido em seu olhar. O galpão todo era mal-iluminado, e um característico cheiro marcava todo o ambiente. Mas todo o lugar parecia um paraíso, comparado com a mesa a qual me fizera desmaiar: lá havia livros envelhecidos, panos, facas, bacias e vários corpos de animais inertes, alguns decapitados, alguns mutilados.
Quando ela soltou-me daquele doce abraço, notei que em sua roupa – além de uma incomum sujeira – havia pequenas manchas avermelhadas, num tom emplastado. Na hora eu soube: aquilo era sangue.
“O que diabos está acontecendo aqui, Marian? Porque tem corpos de animais naquela mesa?” – Perguntei eu, já recuperado, colocando minhas mãos em seus ombros.
Ela hesitou. Quando abriu a primeira palavra ia escapar de sua boca, uma figura ganhou forma na sombra: saia da escuridão, com passos firmes, uma outra garota.
“Você contou alguma coisa a ele, Mary?” – Questionou a garota, sua voz fina soando como música, mas ainda ameaçadora. Não dei tempo para ela confrontar Marian.
“O que você estava fazendo com ela?” – Tomei a frente de Marian, e a empurrando com meu braço, coloquei-a atrás de mim, numa posição para defendê-la. A garota riu alto.
“É, você contou alguma coisa a ele. Eu não sabia que sei namoradinho era tão corajoso. Ah, deve ser porque ele não pareceu tão corajoso desmaiando algum tempo atrás. E quanto a você – Agora ela apontava ameaçadoramente em minha direção – não se meta aonde não foi chamado. Eu não sei o que ela lhe disse, mas você não pode, de maneira alguma, nos ajudar. Agora, vá, e nos deixe terminar o que começamos!”
A garota era muito parecida, em alguns aspectos, com Marian. Ambas possuíam a mesma cor de cabelo e pele, e seus lábios também tinham o mesmo formato. Mas a estranha, mesmo parecendo com Mary, não se parecia com ela. Marian era doce; ela, selvagem. Marian ela bela; ela, ameaçadora. Mary era perfeita; ela, uma cópia mal-feita.
Pude ouvir a voz de Marian logo atrás de mim, dizendo:
“Sara, ele tem que saber. Eu devo isso a ele.” – Uma onda de felicidade tomou meio corpo, ao ouvi-la falar isso – “ E se você nos impedir, bom, tenho certeza que você tem consciência do que eu sou capaz. Nathan, vamos lá para fora. Eu não suporto essa lugar.” – E então ela se foi, sem olhar para trás, em direção da porta.
E eu, sem hesitar, a segui, deixando uma atônita Sara para trás.

~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~

Quando vi o corpulento garoto indo através da porta com minha prima, Marian, não pude deixar de esboçar um sorriso. “Ela é realmente a mais brilhante atriz que eu já vi!”, pensei eu, reconhecendo sua perfeita atuação recém executada.
Suspirei aliviada, a primeira vez após muito, muito tempo. “Finalmente vamos nos livrar da maldição! Finalmente seremos livres de novo!” – murmurei, exultante. Olhei para os instrumentos e corpos em cima da mesa; tudo fachada, sabia eu. Marian finalmente conseguira: tinha achado o nosso sacrifício.

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Use your illusion

É tudo uma questão de percepção. Apenas concluímos aquilo que podemos perceber, então logo, se não há percepção, igualmente não há compreensão. Não existem fatos concretos, muito menos verdades absolutas; vemos aquilo que queremos ver, cremos naquilo que gostaríamos de crer. Nossa capacidade nata de distorcer toda e qualquer realidade deve ser louvada, pois é uma das âncoras que ainda nos prendem à sanidade. Os clamados consensos gerais não passam uma opinião simples aplicada – e acatada – por todos, vezes por fraqueza, vezes por ignorância, certas vezes apenas por medo. Porque aqueles que se abstêm da linha de pensamento da maioria sempre serão vistos como a escória, sendo que, na verdade, são justamente o contrário. A dúvida traz a diferença, e a diferença traz a evolução.
A opressão contra os que são diferentes – uma característica marcante da humanidade através dos séculos – ocorre por um único motivo: medo. Temos quase que por hábito temer aquilo – ou quem – desconhecemos. Uma atitude relevante de auto-preservação, mas que atualmente é obsoleta, pois é mais do que impossível manter um padrão de pensamento quando a informação excessiva muda milhões de opiniões em questão de segundos. Tudo é rápido, tudo é mutável. Mas, ignorando fatos indubitáveis, ainda remanescem aqueles que insistem em perseguir aquilo que não entendem e, consequentemente, temem. Oprimem com as armas que têm, atacam com as palavras que ainda restam. Inútil, porque mesmo uma personalidade fraca munida de opinião mutável e caráter fraco, manterá sua essência. O âmago humano, individual a cada indivíduo, é a única parte eterna que possuímos.
Tendemos a nos agarrar a banalidades para tentar ignorar os fatos que cercam de nossas vidas. Mais fácil fechar os olhos do que suportar a dor causada por um mergulho mais fundo na realidade, que é cruel, fria, cinzenta, um lugar aonde não há piedade e nem compaixão; a única coisa que você pode esperar da realidade é a decepção. Então ninguém mentalmente são vive na realidade; cada um vive em seu próprio mundo, criado a partir de percepções concisas e dispersas da verdade real. Abrigamos-nos em casulos feitos por nós mesmos, na tentativa de apagar aquilo que jamais vimos.
Nesse emaranhado de sombras e imprecisões, a lei das projeções reina absoluta. Tudo o que vemos, apreciamos, amamos e louvamos não passam de projeções feitas por nossas falhas percepções, imagens agradáveis provindas do nosso mais profundo desejo interior. A realidade já não importa; apenas aquilo que aproveitamos dela. Tornamo-nos especialistas em crer, viver, respirar nossas ilusões. E, se por um infeliz acaso, um dia acordamos, não estaremos mais preparados para suportar aquilo que realmente há. Para nós, a ilusão tornou-se tão forte que se sobrepõe à realidade, dispersando qualquer possibilidade de uma compreensão mais profunda sobre qualquer uma das duas. Tornou-se confuso ser confuso, complexo ser complexo. O que nos resta é acreditar tão profundamente que realmente há uma luz na escuridão que, no final das contas, irá parecer que sempre houve uma luz na escuridão. Não basta crer; é preciso acreditar com tamanha veemência para tudo deixar de ser uma crença e se tornar uma realidade. É isso que nos resta, quase que um último suspiro de esperança, sem manual de instruções nem idealização profunda.
No final das contas, nunca passou de uma questão de saber usar sua ilusão.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

The Usual Suspects

http://www.youtube.com/watch?v=AaL7mmWkK1k http://www.youtube.com/watch?v=1eg_d2e9YQY

Algumas coisas não fazem o mínimo sentido. Essa foi, certamente, uma dessas coisas. A propósito, J.S. é a criatura de capuz preto e violão, e ele odeia pessoas que referem-se a si mesmos na 3° pessoa.

domingo, 6 de junho de 2010

You've been thunderstruck

Vivemos, atualmente, num mundo sombrio e de trevas, aonde a música ruim predomina: Cantores modistas que são incompreensivelmente adorados por suas fãs adolescentes carentes (Justin Bieber, Luan Santana), nos quais a única explicação plausível que se encaixa é que eles tenham achado a fórmula de vender sua alma ao Diabo. (reler Sympathy for the Devil)
Bandas com nomes que parecem títulos de cerveja de baixa qualidade – e quente – (Cine, Restart) as quais, aparentemente, tentam mesclar todas as cores do arco-íris em seu vestuário. Também há a teoria de um grande amigo meu dizendo que, na realidade, eles são seres extraterrestres que estão tentando achar uma fórmula de dominar a juventude terráquea. E, aparentemente, acharam! Basta se vestir da fórmula mais ridícula e cantar o mais desafinado possível qualquer coisa “emocional” que todas e todas – salvo raras exceções – o amarão. Já eu acredito que eles são alguma espécie de praga do apocalipse moderno. Algum tipo de monstro que escapou quando a desavisada Pandora abriu sua caixa, talvez. Vejam, eu estou apenas tentando achar uma explicação que faça sentido, pois estou mais disposto à acreditar que o próximo presidente brasileiro mudará tudo para melhor ou que o Irã usa urânio “apenas” para criação de energia do que crer que as pessoas realmente consideram o que esses seres cantam seja realmente bom. Simplesmente me nego a acreditar que os “fãs” destas “bandas” sintam-se felizes os ouvindo. Luto, aqui, para achar uma resposta mais consistente, como algum tipo de complô envolvendo vendedores de roupas coloridas, cabeleireiros de franjas emos, maquiadores amadores, psicólogos infantis e vendedores russos de vodka.
E então qual seria a chave para o extermínio desta praga? Esta chave tem nome, um nome bem conhecido: rock and roll! Nada mais eficiente, sei eu, para o fim de música de baixa qualidade do que um bom som. E, por favor, quando eu me refiro à rock and roll não estou falando de Fresno, NX zero e afins – o que seria uma injúria imperdoável pelo Sindicato do Rock, punível com show da banda Djavu em praça pública – mas sim de grupos como AC/DC (veja a brilhante obra de arte de um grande amigo no final do post) Guns and Roses, Ramones, Pink Floyd, Rolling Stones... Vejam, não estou dizendo que os únicos sons bons provêm destas bandas; estou afirmando que as músicas destas bandas são os melhores antídotos contra qualquer tipo de asneira pop ou emo. Então, no infeliz caso de você ser “picado” (uí!) – no sentido figurativo, claro – por algum power pop ou gêneros em algum perigoso shopping por aí, peça no hospital doses de 100 decibéis de um bom e velho mullet rock’n’roll.

Agora, no intuito de prevenção, o blog fará um serviço de utilidade pública: uma pequeno texto sobre as características dos perigosíssimos emos. Leia atentamente, pois talvez ela possa salvar sua vida, qualquer dia...

“Emos são criaturas estranhas que têm com habitat, principalmente, shopping centers e em alguns casos, praças. Andam em grupos, variando de 3 a 15 integrantes, e são de fácil identificação, pois sempre usam roupas que os destacam dos demais. Quando atacam em grupo, podem ser perigosos, causando, entre outros sintomas: dor de cabeça causada pelo choro irritante deles; irritação extrema por conta dos xingamentos como “cara de mamão”, “bobalhão”, “bacacão”, entre outros; podem ocorrer manchas avermelhadas por toda sua pele se você bater neles a ponto de fazê-los sangrar em demasia; Existem sub-variações, como power pops, que são uma espécie de emos coloridos. Diferenciam-se dos outros por usarem acessórios ridiculamente chamativos e coloridos. Também há os posers, que são de uma índole pior: apenas se fingem dessas criaturas, como uma cobra-coral falsa, por exemplo. Dizem que gostam de uma banda mesmo nunca tendo ouvido-a, falam que adoram um filme mesmo nunca o tendo visto. Têm as mesmas características de um emo padrão, mas talvez sejam mais perigosos por ainda não serem definidos. Prevenção: manter-se afastado de shoppings, e o mais importante, seja um indivíduo normal¸ que não quer chamar toda a atenção a cada passo dado. Extermínio: Rock and roll em volume altíssimo vem mostrando alta eficácia, segundo estudo realizado pela FFA (Faculdade Federativa do Acre). Também existem métodos mais caseiros, como colocá-los para limpar o quintal, trabalhar, castigo, levá-los a um prostíbulo, etc.” Texto retirado do livro “Guia prático de sobrevivência às pragas modernas, volume 1” escrito pelo doutorando em sociologia Nathan J. Aschilleon.
P.S.: Bom, esse foi um texto ofensivo e preconceituoso, então se você se sentiu ofendido, tem duas opções: me xingar muito pelos comentários ou twitter, ou tentar ser maduro o suficiente para levar na esportiva, escrever um texto mil vezes melhor que o meu, publica-lo em algum lugar famoso para então depois rir da minha cara.
P.S. 2: Infinitos agradecimentos ao meu grande amigo I. E. R., autor do desenho abaixo.



sexta-feira, 4 de junho de 2010

Abandon all hope

Àqueles que me apoiaram de forma que eu jamais poderia pagar;
Àquelas por quem caí de amor;
Àqueles que me desviaram no caminho, me colocando no meu caminho;
Àquelas que despedaçaram meu coração;
E a todos eles e elas que, corajosamente, leem o que eu escrevo;
Abandonem toda esperança.


O garoto ficou quase inexpressivo, com uma expressão de terror congelada em seu rosto, enquanto observava a bela garota indo embora. Ele continuou lá, estacionado, até mesmo quando a cálida chuva começou a cair insistente do céu. Não foram mais do que alguns minutos, mas a ele pareceram intermináveis horas de suplício, momentos de intolerável dor.
A garota continuou seguindo seu caminho, a passos largos, tentando com todas suas forças não demonstrar sua hesitação. Ficou satisfeita pela fina chuva que começara a cair, pois ela poderia esconder as lágrimas que em seus olhos brotavam. Seu coração gritava para ela voltar lá e então abraça-lo como nunca fizera antes; mas não havia volta. As decisões são um caminho sem volta.
O garoto, apenas após derramar sua primeira lágrima, levantou-se. Tudo o que ele mais desejava era correr até ela, toma-lá em seus braços e beija-lá com nunca fizera antes. Mas já não podia, não mais; todas suas chances se foram. Dentro de si crescia um monstro incontrolável e destrutivo chamado raiva. E, sabia ele, quando essa criatura fosse liberada, muitos outros viriam com ele: ódio, rancor, medo, inveja, pessimismo... A ideia de viver sem ela finalmente materializou-se em sua frente. Um futuro obscuro e desconhecido, frio e sem luz. Então ele caiu de novo.
A garota, apenas após ficar longe do campo de visão dele, sentou-se no frio e molhado chão, e repousando sua face em suas mãos, deixou-se levar pela dor. A expressão de dor cravada no rosto dele parecia um fantasma, que em busca de justiça, voltava para assombrá-la. E a dor dele era a sua dor, sabia ela. Sempre soube. Com toda sua força de vontade, reuniu o que ainda lhe restava de coragem, e então levantou-se. A idealização de seu futuro sem ele foi cruel de uma forma que ela não imagina ser possível: sem fé, sem felicidade, sem paz. Insuportavelmente real, ela o viu materializar em sua frente, e mesmo sabendo ser apenas mais um fruto de sua confusa mente, a saudade a cobriu. Então ela caiu de novo.
O garoto agora caminhava lentamente através das lamacentas ruelas, tentando achar um caminho aonde sabia que não havia. Para ele já não importava; nada mais importava. Só queria achar alguma maneira – mesmo que impossível e dolorosa – de seguir em frente, pois sabia que era justamente a ele que cabia achar sua felicidade. Parou no meio do lugar nenhum, e solenemente fechando seus olhos, decidiu que tinha que esquecê-la. Que tinha que deixa-la ir, que tinha que acreditar com cada fibra de seu corpo que ela morreu; pois para ele, a partir daquele singular momento, ela morrera de verdade. Sentindo-se completamente diferente daquilo que jamais foi, disse sua conclusão final, seu último suspiro de dor: abandone toda esperança.
A garota continuava a tentar achar algo consistente o suficiente para se agarrar e então levantar-se de sua escuridão, mas não conseguira. Para ela, nada mais era palpável, nada mais era real. Só perda e dor. Ainda extasiada por tudo aquilo que aconteceu e por tudo aquilo que deixou de acontecer, pôs-se de pé, e mentiu para si mesma: “Está tudo bem.” Respirou fundo, e apreciando cada toque que o gelado ar noturno dava em seus pulmões, colocou-se a caminhar novamente. O que restou é a chance de seguir em frente, tomou ela por conclusão. Tentar esquecer aquilo que foi prometido jamais ser esquecido, lutar contra aquilo que antes fora amado. Mudar a si mesma de maneiras inimagináveis. Num mantra cruel e verdadeiro, pode-se notar seus rosados lábios se crisparem em um último sussurro: abandone toda esperança.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Now and then when I see her face, she takes me away to that special place...

Já era tarde, mas eu simplesmente não me cansava de ler aquelas palavras. O timbre silencioso da fria noite parecia me aconchegar, me abraçar num gracejo indesejado, desconfortável, até. Mas eu não podia, não iria, não deveria parar de ler aquelas palavras. Parecia-me que despertei de um longo sono, cheio de sonhos confusos e pensamentos difusos, e só após abrir meus olhos, pude então notar que havia uma luz no fim do túnel. Uma luz com nome e sobrenome, uma luz que respirava. A parte mais doce do sonho é aquela que ainda não aconteceu.
A difusa mistura de cheiros do café em mão me ajudava, de uma forma nada ortodoxa, a despertar. Manteve-me consciente o suficiente para ler, só mais uma vez, as palavras que em minha frente insistiam em aparecer. E meu coração bateu, descompassado; não o culpo. Ninguém pode culpá-lo, pois ele nunca teve culpa. Só fez aquilo que deveria fazer, aquilo que a ele foi incumbido sentir. Não importava quantas vezes tentasse, quantas vezes lutasse contra o inevitavelmente inalterável, sempre voltava para onde comecei: com aquelas palavras. As palavras acendiam uma luz que há muito fora apagada, as palavras que podiam tudo mudar – mas, temia, apenas em minha incoerente mente. A verdade é tão mutável quanto um pensamento. Aquilo que meus interpretaram pode ter sido tão diferente – e quanto eu temo! – daquilo que você quis dizer.
E então eu caí. Num sono limpo, claro. Sem chances de defesas, meu corpo venceu a minha já abalada consciência. Tão longe, já não podia distinguir o real do imaginário, o verdadeiro do especulativo, se aquilo que eu via era realmente o que acontecia. Minha mente me abrigava de maneiras das quais nem podia imaginar. Protegia-me da escuridão, e trazia, quase que num sopro, as nossas memórias, o teu rosto, as tuas palavras.
Queria saber por que não foi todo o tempo assim. Por que a vida, quase irônica, teve que dar tamanhas voltas antes de fazer a coisa certa a fazer. Queria saber se o que eu sentia era o que você sentia. Queria saber a verdade, só a verdade. Enquanto houver tempo, haverá esperança, haverá luz.
No final das contas, eu só queria que nós soubéssemos. E no fundo, a gente sabe.

Castiel

"I'm the one who gripped you tight and raised you from Perdition. (...) My name is Castiel, I'm an angel of the Lord."
"I dragged you out of hell, I can throw you back in."
"I'm back scares you? Well, it should."



Thanks a lot to Lucas H., my courageous friend who made this amazing drawing. (www.twitter.com/lucas_heinen or http://www.cronicasdoanao.blogspot.com/)