segunda-feira, 31 de maio de 2010

All in all it was just another brick in the wall

É muito desconfortável saber que existem algumas coisas que estão fora de seu controle, mesmo estas podendo mudar tanto em nossas vidas. O conhecimento da condição humana de não poder dominar certos fatores pode ser avassaladora, e para muitos, é. Não importa o quão inteligente, bonito e rico você seja, sempre haverão situações inevitáveis. Até porque você não rege sua vida solitariamente; você é o maestro, mas também têm músicos para moldá-la de forma inimagináveis.
Afirmações trazem perguntas, e a questão mais óbvia é: “Então, já que não temos o controle absoluta de nossas vidas, o que fazer?” Creio eu que só há uma solução para esse problema, e essa solução é estar preparado. Estar um passo à frente do que quer que seja, tomar decisões já premeditadas. O fato de estar preparado pode definir se você irá ou não sucumbir às variáveis de sua vida. Já que você não pode impedir uma guerra, ao menos esteja armado – e treinado – para lutar nela, ou então seu fim não será difícil de prever: fracasso.
Mas como me preparar para algo que eu nem sei o que é, que eu nem imagino os efeitos que possa causar? Existem 1,5 kg de gordura em sua cabeça; algumas culturas chamam isso de cérebro. É isso que te faz único, a sua irrevogável capacidade de pensar. E se você usá-lo sabiamente, poderá sempre saber o que acontece ao seu redor, mesmo que nada esteja ocorrendo ao seu redor. A habilidade que seu cérebro tem de prever situações ruins – e até perigosas – é realmente um dom. “Refletir” não é apenas uma palavra bela para livros de filosofia ou dicionários de português; é um verbo que define a inata amplitude que, se quisermos, poderemos ter de nossas vidas. Então, caros leitores, reflitão.
Seríamos completamente anormais se, de alguma forma ou outra, nos acomodássemos em nossas condições. Estamos todos aqui com o propósito de contestar, de lutar por aquilo que cremos ser nosso por direito. E, ao menos eu, acredito que devemos lutar pelo controle de nossa vida. Devemos mudar as invariáveis, quebrar as equações que insistem em dizer aquilo que temos que fazer. É nosso direito, é nosso dever, pois nosso destino cabe justamente a nós. Sempre haverão pessoas para mudá-lo, e sempre haverá você mesmo para reconduzi-lo a seu verdadeiro caminho.
Não há dúvidas que a comodidade é o caminho mais fácil. Crer em um poder insuperável e inigualável regendo a sua vida de forma imutável é muito mais cômodo do que acreditar que a mínima decisão que você – e, às vezes, nem mesmo você – tomar pode e irá alterar todo e qualquer futuro que você virá a ter. E muitos sucumbem a essa comodidade. Muitos esquecem que o seu propósito de viver sempre foi lutar por aquilo que acredita, e não batalhar em guerras que não são suas; o propósito de existir está naquilo que fizemos, no legado que deixamos para trás. Porque, depois de tudo, o que restará de nós serão apenas memórias.
Então, na próxima vez que uma condição for imposta a você contra sua vontade, pense, incansavelmente, sobre suas escolhas. Pense que na mesma proporção que há coisas que você não pode mudar, há as que você pode. Na mesma escala que existem caminhos inevitáveis, sempre existirão atalhos perigosos. Para toda imposição absoluta, haverá um questionamento exato. Nossas decisões formas nossas escolhas, e nossas escolhas os nossos destinos.

Em paz

Não tive escolhas; o tempo passou, e a situação me mudou. Certa vez, um alguém me fez prometer algo que só agora percebi que é impossível de cumprir: não mudar. O privilégio fora um privilégio que não me concedia, mas isso deixou de ser uma questão de privilégio para se tornar um ponto de sobrevivência. A sobrevivência sempre impõe a mudança.
Gosto de pensar que aquele antigo eu morreu no mesmo instante que o meu novo eu nasceu. Não foi algo belo e poético como o renascer de uma fênix; foi doloroso, foi corrosivo. Um, literalmente, processo autodestrutivo. E o que nasceu, para minha surpresa, é exatamente igual ao o que era. Incrivelmente, não houve mudanças, aconteceram adaptações.
E eu, já adaptado, reconstruído e preparado, me lancei de volta à vida. Mantive as aparências, como de hábito. Nada pior de que, além de estar quebrado, ter que explicar a todos o porquê disso. Se tenho que sofrer, ao menos vou sofrer em paz. Sem descanso, nem glamour, nem plateia. Apenas um estável e limpo “em paz”.



quarta-feira, 26 de maio de 2010

Catch me if you can

Alguém, a propósito, um alguém muito especial, me perguntou como é que funciona o meu “processo criativo”. Para se sincero, o meu "processo criativo" é “processar o criativo”. Entenda:


As ideias não vêm até mim, eu é que eu tenho que correr atrás delas. Quase sempre funciona assim: o primeiro passo é achar a Criatividade, então depois de acha-lá, a amarro na cadeira, boto uma lâmpada na cara dela, olho de forma ameaçadora, e vou logo perguntando:
- Cadê a Ideia, droga!
E a Criatividade, suando frio, diz:
- Eu não sei! Eu não vejo a Ideia desde quando eu dei um Trocadilho para ela, semana passada!
- Quer dizer que, além de politicamente incorreta, você é traficante de Trocadilhos, sua Criatividade de merda? Gosta de vender Tiradas, também, hein? Foi você que levou a Ideia pro mau caminho, droga! Ela ficou tão perdida desde quando perdeu seu acento aguda. Abusando da crise de identidade da pobrezinha, seu safado! – então eu estapeio a Criatividade.
- Você não sabe do que está falando – disse-me a Criatividade – A Ideia já está bem grandinha, sabe pensar por contra própria. Aliás, pelo o que eu soube, a Ideia está sempre junta com o Pensamento. Acho que tem um casinho entre os dois...
- Cala a boca! – Disse eu, irritado. – Quem é o teu fornecedor de Trocadilhos, Tiradas, Rimas, essas porcarias, hein?
- Um plagiador me fornece por um bom preço. Ele rouba de alguém, silenciosamente, e então me repassa para eu vender. Coisa de boa qualidade. Fiquei sabendo que ele rouba de um cara que até um livro já publicou...
- Criatividade, como é que você pode? Você é o pai de Ideia, droga, o pai dela!
- Eu já tive muitas Ideias. – disse, baixinho, a Criatividade – Umas boas, outras ruins. Algumas geniais, outras inúteis. Por que você está tão interessado naquela Ideia?
- Algo me diz que ela tem algo a mais. Acho que até um texto posso fazer com ela... Então eu proponho:
-Vamos fazer assim, Criatividade, eu te libero por insanidade, e você me diz onde está a Ideia, ou você fica calado, e deixo você apodrecer em uma mente infértil de algum emo que só pensa em Restart...
- Não, Sr. J.S., tudo menos isso! A Ideia está escondida lá na casa da Imaginação, perto da Alameda dos Sonhos. Mas só não diz para ela que fui eu que te disse... A pior coisa para uma Criatividade é uma rebelião de Ideias.
- Pode deixar. Mas se eu te vendendo Trocadilhos por aí, te boto para apodrecer dentro de uma cabeça oca, entendeu?
E então vai a Criatividade embora, cambaleando. Eu suspiro. È incrível como a minha Criatividade é instável.
Depois de achar a Ideia, tomo um depoimento dela e, se for bom, então escrevo um post. Encaixo a Ideia no sistema de proteção à testemunhas, e ficamos todos felizes.

terça-feira, 25 de maio de 2010

Don't you cry no more

Textos escrito por J.S., eu, dia 23/05/2010, das 22:42 até 23:28

Minha vida está indo, cada vez mais, para caminhos difíceis, escolhas irrevogáveis. Quando eu a vi indo – e eu sabia que seria a última vez que a olharia – percebi o real peso da minha decisão. Não sei ao certo se arrependimento era o sentimento que eu sentia, mas só soube de uma coisa: era extremamente doloroso. O habitual nó em minha garganta apareceu quase que em perfeita sincronia com a primeira de muitas lágrimas que me lavavam, tentando inutilmente levar tudo embora, como em uma enxurrada. Não tive muitas escolhas além de me afogar em memórias doces, e como um bom covarde, deixar a dor passar. Olhei para onde outrora ela estivera, fazendo aquele sorriso que apenas ela sabia fazer, e a saudade me cobriu, solenemente, ocupando o lugar que antes existia somente amor.
Dias após dia, eu me enganei da melhor forma que pude. Como já disse, a verdade é uma mentira fácil de acreditar. Minha mentira, sem dúvidas, não era fácil, mas só eu sabia o quanto era conveniente para aquele que, mesmo não tendo nada a jogar, foi o único que perdeu tudo: eu. Me menti de tamanhas formas, de tantas maneira e tamanha vezes, que no final das contas, já nem sabia mais o que era verdade. A desilusão só existe para criar outras realidades, mais cômodas. E eu usei minha ilusão. Embora meus olhos possam ver, ainda sou um homem cego, embora minha mente possa pensar, ainda sou um homem louco.
Porém, quando me dei conta, os dias já haviam se tornado meses. Já não existia mais nada além de memórias, recordações e, indubitavelmente, dor. Dor que só eu sabia de onde provinha. Dor que ninguém entende porque eu sofria. Sofri calado, pois sabia que se falasse, denunciaria que ainda existia algo em meu coração. Meus sentimentos nunca foram embora, apenas foram guardados, calados, interditados com todas minhas forças. Em vez de te guardar embaixo do travesseiro, te escondi em uma caixa empoeirada logo abaixo da minha cama. A questão é que eu nunca lhe perdi; foi só foi embora. Sem culpas, sem rancores, nosso acordo parecia infalível. Parecia.
Eu vou seguir em frente, pois sei que haverá paz quando tudo acabar, quando eu colocar minha cansada cabeça para descansar, quando não houver mais lágrimas.

Seventeen in a Bottle

(Domingo, 23 de maio de 2010)

“Durante três domingos procurou-o inutilmente. (…) Pois no quarto domingo, achou.”


Pois é. Depois de te procurar em amigos que nem se pareciam contigo, em rostos estranhos nas ruas, de repente, eu te achei. Eu estava sozinha, pra variar. Nem era na tua rua, era só mais uma rua qualquer, dessas que a gente passa todo dia e nunca sabe o nome.

E de repente passa por mim um vulto de cabeça meio baixa, de skate. Eu, na verdade, só queria seguir em frente, mas meu coração me obrigou a parar. E assim, por uns dois minutos (desses que parecem uma eternidade) eu fiquei parada, na esquina (opa) te olhando.

Não, não acredito que tu tenha me visto também. Aliás, tenho essa mesma mania de achar que sou dona do mundo e não olho para mais ninguém na rua, nessas horas só existe eu & eu mesma. Talvez tu também estivesse nesses momentos, mas alguma coisa aconteceu, ali, pra eu te encontrar no meu caminho justo no momento que eu não estava distraída. E acredite, estou sempre distraída.

Nunca vai sair da minha cabeça esse “e se”. E se eu tivesse te chamado? Se eu tivesse gritado e pedido pra ti parar e aproveitar pra olhar nos teus olhos, ver o que tu anda fazendo dessa vida. Mas aí vem a questão que dói: teria feito diferença? Tu teria parado ou virado a cara? E se eu tivesse mesmo te parado pra dizer: feliz aniversário? E foda-se que é só amanha, eu só queria ter sido a primeira, eu e minhas manias de ser especial.

Talvez nem me ouvisse chamar, não duvido que estivesse ouvindo música no volume mais alto, apesar de eu não ter notado nenhum fone ou celular. Na verdade, foi tão rápido que podia nem ter sido tu. É, prefiro pensar que era outra pessoa, parecida que passou por mim para deixar saudades de alguém que na verdade não estava nem na mesma cidade que eu. Pronto, melhor assim. Pronto nada. E esse buraco no coração que implora pra gente conversar? E esse nó no cérebro que tenta me explicar que é impossível? Azar, pelo menos eu te vi.

17 é só uma vez e deixa eu te dizer: tudo é só uma vez. Pode ser o 4º abraço e o 6º riso, mas vão ser os únicos 4º abraço e 6º riso, entende? Então aproveita que nada acontece duas vezes e faz algo de útil: vive. Coisa de louca, quero que tu viva, mesmo sem mim. Porra, meu lado egoísta implora que todos os dias tu sinta minha falta tanto quanto eu sinto a tua. Mas lado meu te chuta pra frente e manda: sai daqui e vive bem, longe de mim.

17 anos. Tanta coisa pra ti fazer ainda, tanta coisa já foi feita, tantos caminhos já foram seguidos... Mas nunca é tarde pra mudar nada, e acredito que sempre há o que mudar. Muda, e muda pra melhor. Tem como? Tu sempre foi o “melhor”. Então, não muda nada :) Fica assim, sempre do jeitinho que eu te conheci, do jeito que me fez aproximar de ti. Daí quando as coisas voltarem ao normal entre a gente eu vou sentir como se o tempo não tivesse passado, nós dois estaremos iguais, só eu com umas histórias loucas a mais.

Hm até parece. As coisas nunca vão voltar ao normal, vão? Porque esse é o nosso normal agora. Porra, que normal mais palha. Vontade de enlouquecer as coisas. Mas talvez eu já deixe tudo bem louco só de vir aqui. Só de vir aqui pra ti apagar quando terminar de ler. Azar, tu não respondeu os e-mails e se não fosse por ontem de tarde, eu acharia mesmo que tu tava morto. Quem me dera, pelo menos morto não fica invadindo meus pensamentos e me assombrando pelas ruas de Sapucaia. Mentira, te quero vivo, porque sempre vou ter a esperança de te olhar e dizer: porra, jou, vai tomar no cu e ve se não te some de novo! E terminar com aquele abraço na pontinha do pé, já que de pequena, tenho muito.

17 anos e apenas 2. 17 anos e tudo isso em 2. 17 e tanto pela frente... Jou, obrigada por ter feito tudo que tu fez por mim, desculpa não ter feito tanto, mas alguma porcaria eu fiz, se não tu não teria ficado do meu lado por 2 anos inteiros. Aproveita ao máximo, te quebra, fuma, bebe, chora, ri, grita, cai, sai, canta, corre. Mas por favor, volta inteiro pra casa no fim do dia.

Não é declaração de amor porra nenhuma, tu sabe mais do que ninguém que eu não sei fazer dessas coisas. É declaração de amizade, então. Vou guardar comigo todas as histórias, as risadas, os filmes, as músicas, o cd que nunca chegou. E principalmente os planos, aqueles que a gente nunca realizou, e nunca mais vai realizar. Sabe, esse “nunca” me corta o coração. Nunca é tipo... sei lá, nunca mais ver é uma pequena morte.

Não vou tomar nenhuma medida drástica quanto a nunca mais te ver, a não ser continuar, tem coisa mais autodestrutiva do que insistir sem fé nenhuma? E vou insistir. Sempre. Pronto, “sempre” é tãão melhor que “nunca” :) Juro que não to louca, nem bêbada, to na verdade sóbria pra caralho e é óbvio que eu não tenho outra saída a não ser dizer: feliz aniversário, jou :) Espero mesmo que um monte de coisa boa aconteça contigo, mesmo que tu nem perceba. E não é só porque é teu aniversário, seria clichê demais. É porque tu merece. E (no fundo) tu sabe que merece ;)

Texto escrito por A.P.V.

Foi parcialmente editado por um garoto de olhos negros como a morte, olhos que agora insistem em deixar algumas lágrimas fugirem.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Peroba Facts (parte 3)

Já que eu, como a morte e a ejaculação, tardo, mas não falho, trago a 3° parte dos mundialmente conhecidos no Brasil “Peroba Facts”. Para aqueles afortunados que ainda não tiveram a incoerência de lê-los, acabem logo com isso, e descubra um pouco mais sobre esse ser divinal que habita os mais diversos bares e adegas ao redor do mundo: http://norestforthecursed.blogspot.com/2010/04/33.html; http://norestforthecursed.blogspot.com/2010/04/peroba-facts-parte-2.html

Atenção: antes de publicar mais alguns dos fatos executados pela mais embriagada criatura do mundo, um adendo; a lenda de que colocar cerveja não alcoólica ou Engov ao redor de sua casa para proteger seu estoque pessoal de bebida contra o Peroba é falsa. Qualquer pesquisador que diga o contrário está mentindo, então poupe seu dinheiro; só uma coisa pode parar o Peroba: ele mesmo de mau humor.

Peroba Facts – Parte 3

21- Os gênios moram em lâmpadas porque se morassem em garrafas, o Peroba beberia eles.
22- Certa vez, Peroba atravessou na frente de um gato preto. O gato teve sete anos de azar.
23- Freddy Krugger tem pesadelos com o Peroba.
24- O título original do kama sutra deveria ser: “As noitadas de Peroba, volume 1”.
25- Peroba fica seis dias sem dormir todos os dias.
26- A frase “Houston, we have a problem” surgiu quando os engenheiros das Nasa perceberam que o Peroba bebeu todo o combustível da espaçonave.
27- É proibida a menção da palavra “Peroba” em 87 línguas, contabilizando 114 países.
28- O teor alcoólico do Peroba é tão grande que, qualquer pessoa dentro de um raio de 5 km de distância dele fica inevitavelmente bêbado.
29- A muralha da China foi construída, inicialmente, para manter o Peroba dentro do colégio. Falhou ridiculamente.
30- Buda pedia conselhos à estátua do Peroba que tinha em sua sala, todos os dias.

Por Alessandro “Seqüela” (assíduo contribuinte do blog) e J.S. (escritor, benfeitor, leitor, mantenedor e, infelizmente, autor do blog.)

terça-feira, 18 de maio de 2010

When God is gone and the devil takes hold, who will have mercy on your soul?

Mesmo tendo certeza que poucos dos meus indecorosamente corajosos leitores entenderão esse texto, o postarei. Trata-se de um fanfic, fan fiction, ou seja, ficção escrita por um fã. Como todos aqueles que me conhecem e leem este blog sabem, eu sou um grande fã da série estadunidense "Supernatural". Eu escrevi este fanfic para um outro site, mas realmente não sei se eles postarão ou não, então mesmo achando que ele não se contextualiza com o blog - que tem duas linhas de texto: humor e reflexão - o postarei. Se você é fã de "Supernatural", creio que gostará, mas mesmo não conhecendo essa incrível série televisa, ao menos tente ler texto, que fala um pouco da mitologia cristã e principalmente do anjo Castiel.


When God is gone and the devil takes hold, who will have mercy on your soul?

Quando, após horas que lhe pareceram anos intermináveis, Castiel se mexeu, sentiu o peso da consciência humana. Fechou seus olhos, sentindo a salgada brisa do imenso mar a sua frente. Ele ficara inacabáveis horas parado ali, apenas observando o ininterrupto movimento das ondas. Tudo aquilo, tudo fora Ele que criara. Então por que Ele desistiu de tudo agora? Por que Ele preferiu ficar às sombras a dar um fim a tudo aquilo? Castiel sentiu a imensa raiva dentro de si aumentar, um fogo tão intenso que chegava até a ser sentido por seu receptáculo, Jimmy. Olhou para a garrafa de uísque ao seu lado, quase cheia, e sem hesitar, tomou todo o conteúdo em um longo gole. Repetiu esse ritual inúmeras vezes, garrafa após garrafa, suspiro após suspiro, até sentir a habitual plenitude que ele apenas sentia em sua casa, em seu Paraíso.
Castiel sentia que não importasse o que ele fizesse, seu destino era inexorável; ele acabaria perdendo por total sua graça, acabaria por se tornar humano. Humanos. Essas criaturas que tantos anjos desprezavam. Essas criaturas que eram tão desprezadas por seus defeitos e incoerências. E são essas as criaturas que Ele mais ama. Ama a ponto de mandar todos os seus anjos se ajoelharam perante e amarem igualmente. Ama tanto que os preferiu à seu filho, o arcanjo Lúcifer. O que Lúcifer nunca entendeu é que todos somos filhos Dele, e só porque Ele criou os humanos, não significava que fosse amar menos aos anjos. Mas não, Lúcifer não pode suportar a presença dos humanos, e então se rebelou contra os céus. Seu irmão Michael, o mais poderoso arcanjo dos céus, a mando do Senhor, expulsou o anjo traidor das ordas celestes.
Castiel nunca entendera esse tamanho afeto Dele pelos humanos, mas só após esse curto, entretanto, intenso tempo que ficou na Terra, pode entender. Humanos são fracos, imprevisíveis, traidores, falsos, incoerentes e sentimentais. Mas na mesma proporção são corajosos, lutam com tudo por aqueles que tem afeto, não desiste, e antes de tudo, têm algo que anjos jamais terão: liberdade. Liberdade que proporcionou a um simples humano, Dean Winchester, estragar todos os planos celestes em relação ao apocalipse. Castiel não cansava de refletir – e admirar – o quão interessante Dean era. Mesmo passando terríveis anos no inferno, mesmo tendo visto e feito coisas que todos os humanos duvidariam, ainda consegue ter esperança. Esperança que o Apocalipse não tenha que acabar do jeito que foi previsto – ele como receptáculo de Michael em uma luta mortal com seu irmão, Sam, como receptáculo de Lúcifer – fé de que eles possam, de uma outra maneira, terminar com o fim do mundo. A convicção de Dean sempre fez Castiel o admirar. Fez Castiel se rebelar contra seus irmãos, contra o Céu, contra tudo aquilo que ele acreditava.
Quando Castiel se rebelou contra todas as legiões celestes, começou a perder a fé em seu Pai, em seu Senhor. “Como poderia ele deixar anjos como Zachariah fazer aquilo que fazem?” pensava Castiel. Mas, depois de ser ressuscitado após seu extermínio pelo arcanjo Raphael, voltou a ter fé em seu Pai. Se Ele o trouxe de volta a vida, então teria propósitos, motivos para o anjo. Foi neste momento que Cas soube; ele devia buscar seu pai ausente.
Já portando o poderoso colar de Dean – o único objeto que poderia denunciar a presença de Deus – foi em busca do Criador. Como pode-se achar a força mais absoluta força do universo se Ele não quer ser achado? Castiel evitava esse tipo de suposição para si mesmo. Ele precisava ter fé. Precisava crer com todas suas forças que poderia acabar com tudo, que tinha a capacidade de achar seu Pai. Pois Ele seria o único capaz de impedir seus prodigiosos filhos arcanjos de trazer destruição a todos os humanos no mundo. Castiel tinha que ter fé, pois foi tudo o que lhe restara; do que seria o anjo sem fé?
Entretanto, quase que por uma peça do destino (destino?), os irmãos Winchesters foram ao Céu, e então Cas percebeu que eles tinham uma oportunidade única: encontrar Joshua, o possivelmente único anjo o qual mantinha contato com Deus. Castiel ficara horas apreensivo por respostas quando, finalmente, reviu os Winchesters. E recebeu a única resposta que não queria, a única coisa que seus ouvidos não estavam preparados para ouvir: que o Senhor não se importava com o que estava acontecendo, que não ia interferir. Castiel esperava essa atitude de todos, de tudo; menos do seu criador, de seu Pai.
Castiel se sentiu só, tão só e perdido como nunca imaginou que jamais fosse possível estar. Sem motivos. Do que adianta lutar por um universo sem Deus? Qual é a razão de continuar batalhando por algo, se nem Ele considerou isso digno de batalha? Com essas perguntas ainda em sua mente, questões gravadas de maneira indelével, Castiel vagava, sem razões, sem motivos, sem esperanças, sem fé.

domingo, 16 de maio de 2010

All we need is just a little patience

A paciência é, certamente, uma das mais admiráveis capacidades humanas. Aquele dom de não de esmagar a cabeça de um indivíduo que acabou de pisar em sua unha encravada ou de não espancar o seu monitor quando seu computador ou internet falha justamente na hora que não poderia falhar é mais do que louvável. A minha paciência, particularmente, é tão extensa quanto a riqueza de Zimbábue, a população do Vaticano ou a quantidade de títulos da Libertadores que Corinthians venceu. A última corajosa criatura que me deu um “bom dia” numa segunda-feira de manhã, quando eu estava de ressaca, até hoje não se recuperou de minha terrível vingança, pois eu não o perdoei: xinguei muito no twitter! MUITO! (Para quem não entendeu: http://migre.me/Fuqs)
Aliás, a falta de paciência com certas pessoas e situações é um dos meus melhores defeitos. Melhor defeito? Sim! Se não fosse por essa minha desabilidade de suportar certas coisas, hoje certamente não estaria aqui, escrevendo esse texto; estaria em algum manicômio, tentando entender por que cinco patinhos foram passear, além da montanha para brincar.
E sabendo que existem por aí pessoas tão cabeças quente quanto eu, resolvi escrever uma pequena e confusa lista de coisas que você NÃO deve falar/fazer para algum hot head.

PEQUENA E CONFUSA LISTA DE COISAS QUE VOCÊ NÃO DEVE FALAR/FAZER PARA ALGUM HOT HEAD

- Nunca, sob hipótese algum, você deve dar “bom dia” para alguém que se irrita com facilidade, numa segunda-feira. Além de ser muito xingado no twitter, você pode acabar com uma caneta cravada no meio de sua testa.
- Nunca chame um “esquentadinho” de esquentadinho. Se você o fizer, provavelmente acabará – literalmente – com sua cara esquentada de tanto tomar porrada.
- Não tente qualquer forma de contato ou expressão com alguém desprovido de paciência num dia em que: o time dele perdeu; ele descobriu que o Papai Noel/Coelhinho da Páscoa/Fada do dente não existe; sua sogra voltou do coma após 5 anos ou/e foi morar com ele; ele percebeu que aquele professor particular de inglês de sua filha/esposa não ensinava a ela apenas inglês...
- Não faça perguntas óbvias a um cabeça quente. Se você fizer isso, além de uma resposta bem cretina, pode descobrir um novo sentido para a palavra “dor”. Exemplos: “Você está lendo?” quando alguém está com um livro na mão. Possível resposta: “Não, só estou refletindo se essas folhas podem ou não ser um bom papel higiênico!” Pergunta: “Você saiu do banho?” para um indivíduo que está enrolado numa toalha. Possível resposta: “Da onde você tirou essa ideia maluca? É a última moda usar toalhas como roupas! A propósito, você não viu as notícias? Foi a maior loucura quando algumas modelos desfilaram com as “invisible towel”, ou seja, as toalhas invisíveis, lá em Paris. Três idosos e dois adolescentes quase morreram de infarto naquele dia.”
- Você não deve, em nenhuma ocasião, perguntar a um “hot head” se ele está bem. Nem se ele estiver com uma fratura exposta na perna, nem se ele estiver afundando num poço de areia movediça e nem se ele for gremista. Cabeças quente, geralmente, gostam de resolver seus problemas sozinhos, e se precisarem de ajuda, eles a pedem por conta própria.
- Não faça pegadinhas a alguém sem paciência. Sérgio Mallandro, Sílvio Santos e outras dessas criaturas que têm como conceito de diversão fazer pegadinhas com alguém, só ainda existem por que nunca encontraram alguém “estourado” em seus quadros televisivos. Bom, se eles tivessem encontrado, provavelmente seriam eles que acabariam “estourados”...
- Não escreva um post falando de coisas que você não deve falar/fazer para algum cabeça quente. Ele mais do que certamente rastreará seu ip e tocará pedra em sua casa pelo resto de sua vida.

Obs.: Esse blog e o escritor dele não apóiam, de forma nenhuma, o absurdo ato de “xingar muito no twitter”. Se você se sentiu de alguma forma atacado por esse texto, as ofensas aqui direcionadas são de opinião apenas do autor do blog e de 90,7% da população mundial, então não se mate; ainda existem 9,3% da população para te odiar! Obs. 2: Você pode ler esse texto de forma gratuita, mas copia-lo para seu blog, site, trabalho de colégio ou de presente para sua sogra, só pagando 341 salários mínimos da suíça para o escritor dessa “obra”, sob pena de ouvir a banda "Restart" fazendo cover do Sidney Magal, num show stand-up da Ana Maria Braga, o resto de sua vida.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

I'm much too young to let love break my heart

O sol brilhou para mim, como de praxe. Todos os dias, ele brilhava para mim, não exclusivamente, nem unicamente, mas quase que constantemente, como um recado; não importa o que aconteça, ele continuará brilhando para mim. Infelizmente, nem ele conseguiu ofuscar ou preencher o incompreensível vazio que crescia exponencialmente dentro de mim. Um vácuo onipresente no meu corpo, que me dominava, me imperava. Por mais que me concentra-se em manter as aparências, sabia eu que ele ainda estava lá, quase que um desconfortável recado de meu passado. Pois foi meu passado que trouxe esse vazio para dentro de mim. Minhas escolhas erradas, minhas decisões confusas. Como vou culpar alguém, se o único culpado fui eu?
Não tive tempo para reflexão, nem novas chances; quando eu me dei conta, já estava ferido, com o mais profundo vazio cravado em minha alma. Mas, no final das contas, será que ainda tenho minha alma? Até porque eu a dei a alguém – aquele alguém que nunca mais verei o sorriso, nunca mais receberei um abraço – e esse alguém não me deu a sua de volta. Será, então, esse vazio a falta de uma alma, a perca de uma razão? Novo e de novo, eu não sei. São só perguntas sem respostas, momentos de compaixão. Como vou culpar alguém, se o único culpado fui eu?
Só alguns, até agora, perceberam o quão quebrado eu estou. Apenas aqueles que realmente me conhecem – alguns me conhecem melhor do que eu mesmo – conseguiram notar que já não sou o mesmo. Aquele que eles conheceram, aquele por quem acharam amor ou amizade, afeto ou paixão, já se foi há muito, muito tempo. Se perdeu aonde já não pode mais ser achado: dentro de si mesmo. O que sou agora? Novamente, não sei. Um híbrido do que fui e do que serei, talvez. As mudanças são nada mais do que nossos desejos, anseios e medos transformados em nossas ações. Como vou culpar alguém, se o único culpado fui eu?
Há cura para essa minha doença inexistente? É claro. A questão da minha cura não é o quê, e sim quem. Quem teria coragem o suficiente para entender, gostar e amar alguém quebrado, que está condicionado com a dor? Quem seria forte o bastante para juntar os meus pedaços, para tentar afastar a neblina invencível que eu trouxe para mim? Se existe, esse alguém seria minha cura indubitável. Seria aquele alguém que me traria luz, não como o sol, que traz luz a todos; essa minha cura me iluminaria com exclusividade, sem hesitação: me traria, depois de tanto tempo, amor.
Como vou culpar a mim mesmo, se o único que não teve culpa fui eu?

domingo, 9 de maio de 2010

Mamma, put my guns in the ground, I can't shoot them anymore

Hoje, dia 8 de maio, o segundo domingo desse mês, é um dia especial, com milhares de pessoas comemorando ao redor do mundo. Como todos sabemos, hoje é o dia do orgasmo. Brincadeiras a parte, hoje é o dia das mães, o dia que homenageia àquelas que corajosamente nos colocaram no mundo. Então eu, humildemente, escreverei um post em homenagem a todas as mães do mundo, até porque eu sou, literalmente, um filho da mãe!

A tendência é que, quanto mais crescemos, mais amadurecemos e evoluímos. Mas mesmo amadurecidos e evoluídos, sempre haverão algumas questões insolúveis. E um desses mistérios é, sem dúvida, como é que alguém consegue abdicar grande parte de sua vida para ter um filho? Eu – felizmente – jamais poderei responder essa questão, até porque é fisicamente impossível eu ser mãe. Mas eu observo, e amo, muito minha mãe, então escreverei uma lista de coisas que pensamos que estão acontecendo, e o que realmente está acontecendo. Uma viva à todas as matriarcas, que mesmo com o mundo caindo sobre suas cabeças, lutam para manter tudo bem – nem que esse tudo seja só as aparências – por um único motivo: a felicidade alheia. Então, reflitão:

O QUE VOCÊ ACHA QUE ESTÁ ACONTECENDO, E O QUE REALMETE ESTÁ

1 aos 2 anos: O que você pensa: Tudo é tão novo, cada sensação é especial. Não importa o quão tarde seja, ou o quanto frio esteja, é só você chorar que aparecerá ela para te socorrer. Não se sabe realmente quem ela é, mas já se sabe que ela é a pessoa que você mais ama no mundo. Mas também, como não amar aquela que te amamenta, que canta até você dormir, que lhe protege de tudo e todos? O mundo é maravilhoso. O que realmente está: Tudo é tão novo, cada coisa é tão diferente. A vida mudou completamente para a mãe. Agora existe uma pequena vida que depende exclusivamente de você, que por qualquer mínimo erro seu, pode sofrer as conseqüências. Seus olhos quase fecham, pela primeira vez na noite, mas não houve tempo; o agudo som de um choro ecoa através do quarto. A vontade é de tocar uma almofada nele e voltar a dormir. Mas não, o instinto materno fala mais alto, muito mais alto. Como alguém pode não gostar de uma criatura tão angelical, com olhos tão inteligentes, mas ao mesmo tempo, tão frágeis? O mundo está diferente, nem melhor, nem pior; apenas diferente.

3 aos 10 anos: O que você pensa: A vida é uma festa. Não importa o quanto errado esteja, sempre estará certo, desde que você com sua expressão mais doce e diga: “Foi sem querer, mãe.”. Então ela hesita, mas não consegue ficar brava. Como ela consegue ser tão boa? Seria ela um anjo? Talvez. Deus sabe, até anjos caem, mas minha mãe nunca cai, nunca peca; o que quer que eu faça, ela vai continuar me amando, por um simples motivo: ela é minha mãe.
O que realmente está: A vida está uma bagunça. O antes tão doce bebê está se tornando um pestinha, muitos vezes fora do limite. Cada coisa que ele apronta! Mas como ficar irritado com ele, se ele é meu filho? Não importa o que ele quebre, quem ele insulte e o que ele faça, sempre o amarei, por um simples motivo: sou sua mãe.

10 aos 18 anos: O que você pensa: A vida é uma festa, mas você não foi convidado. Malditos todos sejam! Por que não podem me deixar odiar à todos, em paz? Minha mãe – argh, minha mãe – só é boa em uma coisa: me incomodar. Por que ela simplesmente não me deixa crescer, até porque deixei de ser criança há muito tempo atrás?
“Que horas você volta?”, “Leva um casaco!”, “Por que você está tão triste?”, “Você anda comento tão pouco!” são as coisas que mais ouço da boca de minha mãe, é claro, quando não a ignoro. Minha vida está um saco.
O que realmente está: A vida de meu filho – e consequentemente a minha – está de cabeça para baixo. Desde que ele começou a crescer, até parece que deixou de ser aquela criança adorável que tanto amei, e amo. Não me dá mais um “boa noite”, não me beija quando chega da escola; há muito tempo que não me dá satisfação por onde anda. Tenho tanto medo que ele se desvirtue, que vá para o mau caminho. Eu sei que ele está apenas confuso, mas toda vez que tento conversar, só tenha uma resposta: “me deixa em paz!”. Tudo o que eu queria é que ele ficasse em paz, mas como posso apaziguá-lo, se ele, há muito, já não confia em mim? Meu filho cresceu, e não sei se isso é bom ou ruim.

19 aos 35 anos: O que você pensa: Bem vindo à selva. Agora sou um adulto, estou no ápice de minha vida. Tenho minha própria família, meu próprio filho. Tenho bom trabalho, boa casa, tudo como o planejado. Minha mãe? Ah, é claro. Ela está bem, é óbvio. Acho que ela apenas melhorou desde que saí da casa dela. Agora pode viver a vida dela livremente, sem obrigações. Ela me liga, às vezes, e temos rápidas conversas. O que mais sinto falta? Da comida dela, é claro. Que minha esposa nunca veja isso, mas comida como a de mãe não existe igual.
O que realmente está: um novo sentido para a palavra solidão. Sempre pensei que a aposentadoria fosse maravilhosa, mas para minha surpresa, não é. A solidão é tanto que, por vezes, me pego olhando fotos do passado, lembrando-me de antigos bons momentos. Agora meu filho já não tem mais tempo para mim. Possui sua própria família, sua esposa – aquela megera que o roubou tão precocemente de mim – e seu filho. O amo tanto, mas parece que ele não me ama mais, pelo menos não do mesmo jeito de antes. Porque deveria ele me amar, já que não precisa mais de mim? O tempo custa a passar, e estou tão só.

36 aos 50 anos: O que você pensa é o que realmente está: Mamãe se foi, e dessa vez para sempre. Cada vez que penso que nunca mais verei seu sorriso, sua voz, seus conselhos, meu peito dói, e uma solitária lágrima escorre em meu rosto. Cada “eu te amo” que não disse, cada abraço que não dei, cada sorriso que não retribui, doem tanto agora! Ela abdicou parte da vida dela por mim, e eu não retribui a altura. Amo tanto minha mãe, tanto, e apenas me arrependo por ter percebido isso tarde demais; descobri que a amo justamente quando eu já não posso mais dizer isso à ela.

Se gostou do texto, corra até sua mãe a abrace, porque se há uma hora para dizer que a ama, essa hora é agora!

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Don't let me down

Se há algo que me espanta em mim mesmo é o meu egoísmo. Não tenho a honrosa capacidade de ver os outros em frente mim. Erro meu, admito. Prova disso é que grande parte do que escrevo é exatamente sobre mim. Assisto minha vida 24h por dia, sou o ator e diretor dela, e muitas vezes, até o roteirista. Coordeno com quem vou contracenar, mas não controlo os coadjuvantes. Mas, como bom humano que sou, realmente não controlo quem roubará a cena de minha vida. Foge da minha mão coordenar quem aparecerá sem convite, e vai então mudar todo o meu script, me obrigando a escrever mais e mais capítulos de uma necessariamente confusa história, a qual chamo de vida.
Dia após dia, o meu tênue altruísmo é posto à prova. Como posso – e por que devo – amar alguém mais do que a mim mesmo? Todas as vezes que fiz isso, só obtive uma coisa: dor. E não uma dor que passa com um expressivo coquetel de analgésicos. Falo de uma dor que, de tão profunda e incompreensível, muda o que você é. O único jeito de acabar com a dor que eu me refiro é deixando de ser aquilo que você é. E como isso é difícil! Se recriar como um personagem que você nunca foi não é belo quanto um renascer das cinzas; está mais para se tornar um zumbi.
As pessoas têm, quase que por hábito, o poder de me decepcionar. Um poder que foi concedido por mim, admito. Por que confiar à alguém a capacidade de derrubar, de me destronar de meu trono? Por que dar armas aos vilões? Muitas vezes, vezes de mais, minha inocência foi mais conveniente que minha desconfiança.
Uma coisa que levei tempo demais para aprender foi que, entre mim e os outros, os outros são muito mais importantes, por uma primordial diferença: os outros são muitos mais numerosos do que apenas eu. E sempre serão. Cabe justamente a mim achar, e por que não lutar, por meu espaço.
É claro que eu posso trazer mudanças. Se, de todos os meus textos, algum realmente somou alguma coisa a alguém, tudo valeu a pena. Estou aqui não para mudar os outros; venho, justamente, para acrescentar. Toda e qualquer soma é de extrema valia para todos nós. E aqui venho eu, um egoísta assumido, dar uma dica de algo extremamente altruísta: tente acrescentar algo na vida de alguém. Dê aquele abraço que nunca deu, sorria aquele sorriso que nunca sorriu. Um simples gesto, uma pequena palavra, ou até um singelo olhar pode mudar toda uma vida, todo um destino. E só então você saberá: tudo valeu a pena.

quinta-feira, 6 de maio de 2010

E o que tem aqui por dentro, ninguém pode roubar

Depois de tanto tempo – sim, para mim aquele ontem tão próximo é passado distante – aconteceu algo que eu, inocentemente, sempre acreditei ser impossível: eu esqueci. Minhas lágrimas já não aparecem, sorrateiras, em momentos de incompreensíveis desespero. Meu peito já não aperta quando ouço certa música, quando me lembro de certa voz. Meu coração já não dói quando eu, quebrando minhas regras, olho certas fotos, leio certos textos. Tudo aquilo que pertenceu a nós, agora para mim não passa de uma estranha e doce névoa, algo intocável e imutável, que pertenceu ao meu passado, mas que jamais será parte de meu futuro. Sim, eu admiti, até aceitei. Você não é, e nunca será, meu futuro. Meu passado te pertenceu, mas por escolha sua, somente sua, meu futuro pertence, justamente, à única pessoa que eu não confio: eu. Já me traí vezes de mais, já me enganei com tantas coisas que eu sempre serei, para mim, o principal suspeito.
Depois de tanto tempo, descobri que poderia haver mais do que três gostos em minha boca. Em vez de vodka, aprendi que o impune gosto d’agua, aquele gosto que não existe, pode me ajudar em horas de tamanha dor, de incompreensível tristeza. A água, a límpida água, me ajudou de forma ímpar, e para isso não cobrou nada de volta. Em vez de lágrima, aprendi que poderia existir o doce gosto de um chocolate, vindo de alguém especial; só o doce do chocolate para bater o imbatível salgado de uma lágrima. Em vez de café, o incomum gosto de um energético, pode me manter tão acordado quanto, mas sem a tristeza rudimentar.
Uma coisa só o tempo dirá: se eu fiz, naquele estranho e decisivo dia, a coisa certa. Se eu, no dia em que disse coisas que gostaria de ter dito há muito tempo atrás, tomei a decisão correta. Sinceramente, eu não sei. Só sei do presente, e meu presente pode ser definido em duas palavras, a primeira trazendo a segunda, e não vice-versa: amizade e felicidade.