Foi como nascer de novo. Um nascer completamente diferente de qualquer outro, pois dessa vez eu tinha conhecimento do que iria encontrar. Melhor, eu sabia quem eu encontraria. E, para minha felicidade, eu encontrei.
Ela estava a poucos centímetros de mim. Calma, singela, perfeita. Era Marian, sem dúvidas. O mundo parou. Meu coração começou a martelar com força em meu peito, e dentro de mim o espaço vazio – espaço reservado justamente para o amor de Marian – voltou a se preencher, com deleite. Como há muito não acontecia, senti-me completo, senti-me vivo. Larguei o livro que estava em minhas mãos, a causa e a solução de todos os meus problemas; senti-me livre.
E então avancei. Segurei-a com ternura em meus braços, e ela pareceu entender tudo. Sua face estava ficou ligeiramente rubra quando passei meus braços em volta de seu corpo e a abracei com força. Abracei-a com tamanha intensidade que duvidei se algum dia seria capaz de soltá-la. Mas fui. Quando a libertei, ela mal teve tempo; segundo após, já estava em minha posse de novo. Tomei-a num beijo tão perfeito que o tempo deixou de existir, tão requisitado que a vida parou, tão esperado que nunca acabou. Quando a soltei, o beijo ainda ficou ali, entre nós. Um elo, uma aliança. Para sempre e todo o sempre, nós.
Mas o eterno acabou, e Marian soube. Ela nem precisou ver a indiscreta marca negra que subia por meu pulso para perceber o que eu havia feito. Em seus olhos havia pavor quando ela falou, sua voz calma cortando minha alma:
“Nathan, o que você fez?”
“Marian, você tinha.... você tinha morrido. Você já não existia, e eu não fui capaz de impedir que você se fosse. Então quando Sara disse que havia essa opção, eu não pensei, eu só fiz. E agora, bom, eu não sei o que irá acontecer...”
“Oh, Nathan, não...” – Agora foi ela que me envolveu em abraço penoso, seu rosto pousando em meu ombro. Lágrimas singelas, verdadeiras, decaiam sobre mim, e a dor de Marian agora era a minha. Só então eu percebi o que eu havia feito; agora ela pensaria que tinha culpa por meu fim. Não, não e não. Jamais deixaria Marian sofrer. Nem que isso custasse minha vida – aliás, já custou.
“Vai ficar tudo bem, eu prometo.” – Menti eu, ainda com Marian junto ao meu corpo. Um pensamento básico instalou-se em minha cabeça: eu tinha que sobreviver. E caso eu não conseguisse, tinha que fazer Marian esquecer minha morte. Jamais deixaria ela sofrer.
Agora Marian e eu nos encontrávamos deitados em minha cama, lugar onde outrora eu tanto sofrera por ela. Meus dedos entrelaçavam, aleatoriamente, seus fios de seu cabelo, enquanto ela lia algum poema escrito por mim, há muito já esquecido. A luz era tênue, e o cheiro de Marian – que cheiro! – agora explodia no ambiente, contaminando a tudo. Um momento perfeito. Mas momentos perfeitos nunca são duradouros, pelo menos para mim e minha amada.
- Querida – disse eu – quero que você me prometa uma coisa.
Os olhos castanhos de Marian me fitavam atentos, temerosos. Nem precisei dizer uma palavra; ela já sabia.
- Se você está pensando em desistir, Nathan, eu juro que...
- Vamos ser racionais, Mary. Toda vez que tentamos consertar as coisas, apenas pioramos. E eu não permitirei que você faça qualquer besteira. Eu não suportaria ficar mais nem um segundo sem você. Entenda, Mary, que agora sua vida não pertence apenas a você; você é minha vida agora.
Para minha surpresa, ela não disse uma palavra. Apenas me olhou mais uma vez, beijou-me com toda ternura de sua existência, e se aproximando de mim, disse, com seus lábios roçando em meu ouvido:
- Você sabe como eu me sentirei se... Você, mais do que qualquer um, sabe. Eu não suportarei. Confie em mim, certo? Acredite, eu darei um jeito. – Suas mãos agora deslizavam sobre a marca negra gravada em minha mão.
- Marian, eu não permitirei que você...
Não terminei a frase, pois agora Marian me prendia em um tenro beijo. Ela não desistiria, e nada que eu fizesse seria capaz de mudar esse fato. Situações desesperadoras pedem por medidas desesperadas. Se quisesse me manter vivo, precisava de ajuda, e de alguém que realmente entendesse toda a confusão que acontecia. E eu não tinha muito tempo...
Já era tarde da noite. A brisa gélida da escuridão batida silenciosamente em minha janela, enquanto eu acariciava a pele desnuda de Marian, que agora dormia ao meu lado, sua cabeça repousando sob meu peito. Eu a amava, e era só isso, tudo isso.
Meus pensamentos voavam confusos quando percebi que minha garganta clamava por um pouco d’agua. Nem sob tortura acordaria Marian, e então vi que estava num impasse. Para minha felicidade, notei uma garrafa esquecida logo sobre o criado-mudo ao meu lado, providencialmente. Estiquei meu braço, mas para minha total frustração, não a alcancei. Tomei cuidado para me mexer o menos possível, e para não alterar o sono de minha amada, tentei novamente. Nada. Suspirei, quase um muxoxo, e desisti. Para meu absoluto espanto, a garrafa simplesmente voou do criado-mudo para minha mão, em questão de instantes. Devo ter ficado alguns minutos boquiaberto, atônito, pensando: como diabos eu mexi uma garrafa com a força do pensamento?
