quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Capítulo 6 - A volta

Capítulo anterior aqui


Foi como nascer de novo. Um nascer completamente diferente de qualquer outro, pois dessa vez eu tinha conhecimento do que iria encontrar. Melhor, eu sabia quem eu encontraria. E, para minha felicidade, eu encontrei.
Ela estava a poucos centímetros de mim. Calma, singela, perfeita. Era Marian, sem dúvidas. O mundo parou. Meu coração começou a martelar com força em meu peito, e dentro de mim o espaço vazio – espaço reservado justamente para o amor de Marian – voltou a se preencher, com deleite. Como há muito não acontecia, senti-me completo, senti-me vivo. Larguei o livro que estava em minhas mãos, a causa e a solução de todos os meus problemas; senti-me livre.
E então avancei. Segurei-a com ternura em meus braços, e ela pareceu entender tudo. Sua face estava ficou ligeiramente rubra quando passei meus braços em volta de seu corpo e a abracei com força. Abracei-a com tamanha intensidade que duvidei se algum dia seria capaz de soltá-la. Mas fui. Quando a libertei, ela mal teve tempo; segundo após, já estava em minha posse de novo. Tomei-a num beijo tão perfeito que o tempo deixou de existir, tão requisitado que a vida parou, tão esperado que nunca acabou. Quando a soltei, o beijo ainda ficou ali, entre nós. Um elo, uma aliança. Para sempre e todo o sempre, nós.
Mas o eterno acabou, e Marian soube. Ela nem precisou ver a indiscreta marca negra que subia por meu pulso para perceber o que eu havia feito. Em seus olhos havia pavor quando ela falou, sua voz calma cortando minha alma:
“Nathan, o que você fez?”
“Marian, você tinha.... você tinha morrido. Você já não existia, e eu não fui capaz de impedir que você se fosse. Então quando Sara disse que havia essa opção, eu não pensei, eu só fiz. E agora, bom, eu não sei o que irá acontecer...”
“Oh, Nathan, não...” – Agora foi ela que me envolveu em abraço penoso, seu rosto pousando em meu ombro. Lágrimas singelas, verdadeiras, decaiam sobre mim, e a dor de Marian agora era a minha. Só então eu percebi o que eu havia feito; agora ela pensaria que tinha culpa por meu fim. Não, não e não. Jamais deixaria Marian sofrer. Nem que isso custasse minha vida – aliás, já custou.
“Vai ficar tudo bem, eu prometo.” – Menti eu, ainda com Marian junto ao meu corpo. Um pensamento básico instalou-se em minha cabeça: eu tinha que sobreviver. E caso eu não conseguisse, tinha que fazer Marian esquecer minha morte. Jamais deixaria ela sofrer.


Agora Marian e eu nos encontrávamos deitados em minha cama, lugar onde outrora eu tanto sofrera por ela. Meus dedos entrelaçavam, aleatoriamente, seus fios de seu cabelo, enquanto ela lia algum poema escrito por mim, há muito já esquecido. A luz era tênue, e o cheiro de Marian – que cheiro! – agora explodia no ambiente, contaminando a tudo. Um momento perfeito. Mas momentos perfeitos nunca são duradouros, pelo menos para mim e minha amada.
- Querida – disse eu – quero que você me prometa uma coisa.
Os olhos castanhos de Marian me fitavam atentos, temerosos. Nem precisei dizer uma palavra; ela já sabia.
- Se você está pensando em desistir, Nathan, eu juro que...
- Vamos ser racionais, Mary. Toda vez que tentamos consertar as coisas, apenas pioramos. E eu não permitirei que você faça qualquer besteira. Eu não suportaria ficar mais nem um segundo sem você. Entenda, Mary, que agora sua vida não pertence apenas a você; você é minha vida agora.
Para minha surpresa, ela não disse uma palavra. Apenas me olhou mais uma vez, beijou-me com toda ternura de sua existência, e se aproximando de mim, disse, com seus lábios roçando em meu ouvido:
- Você sabe como eu me sentirei se... Você, mais do que qualquer um, sabe. Eu não suportarei. Confie em mim, certo? Acredite, eu darei um jeito. – Suas mãos agora deslizavam sobre a marca negra gravada em minha mão.
- Marian, eu não permitirei que você...
Não terminei a frase, pois agora Marian me prendia em um tenro beijo. Ela não desistiria, e nada que eu fizesse seria capaz de mudar esse fato. Situações desesperadoras pedem por medidas desesperadas. Se quisesse me manter vivo, precisava de ajuda, e de alguém que realmente entendesse toda a confusão que acontecia. E eu não tinha muito tempo...


Já era tarde da noite. A brisa gélida da escuridão batida silenciosamente em minha janela, enquanto eu acariciava a pele desnuda de Marian, que agora dormia ao meu lado, sua cabeça repousando sob meu peito. Eu a amava, e era só isso, tudo isso.
Meus pensamentos voavam confusos quando percebi que minha garganta clamava por um pouco d’agua. Nem sob tortura acordaria Marian, e então vi que estava num impasse. Para minha felicidade, notei uma garrafa esquecida logo sobre o criado-mudo ao meu lado, providencialmente. Estiquei meu braço, mas para minha total frustração, não a alcancei. Tomei cuidado para me mexer o menos possível, e para não alterar o sono de minha amada, tentei novamente. Nada. Suspirei, quase um muxoxo, e desisti. Para meu absoluto espanto, a garrafa simplesmente voou do criado-mudo para minha mão, em questão de instantes. Devo ter ficado alguns minutos boquiaberto, atônito, pensando: como diabos eu mexi uma garrafa com a força do pensamento?

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Ovo Cósmico

Eis o sentimento que não consiguimos estancar: a duvida.
Carregamos o eterno fardo de arcar com as consequencias escolhidas por nos mesmos, e acabamos por terminar deitados numa praça, bebados, numa tentativa inutil de fugir da verdeira estrutura cosmica da nossa vida nesse planeta pequenino.
Viveremos atormentados pelo "e se", e tudo que eessas duas coisinhas acarretam. Somos escravos das nossas escolhas, e acredito que eu gostaria de ter dito que minha vida só tem valor por que é preenchida de pessoas importantes, como o ilustre dono deste blog, como a lenda viva que respira alcool, como um argentino pau no cu comedor de namoradas dos outros, como um psicopata com nome de boneco, e como um cara magro de doer pendurado numa imaginação diferente.
Gurizada medonha... goastaria de ter bebido mais com vocês, gostaria de ter dormido na rua, rolando pelas sarjetas com vocês, ter tomado um alucinógeno e ter viajado altas num deserto, conversando com raposas.
Mas tudo que passou dependeu de eu ter estado na hora certa, no lugar certo, e acho que se aconteceu, não foi por acaso. A garota apareceu na minha frente, e ela é como uma descarga eletrico no meu cerebro. E por que foi aparecer justo agora?
Por que nada é como eu queria que fosse?
Isso tudo ao meu redor, quem é que trouxe?
Estou pendurado numa linha, que simboliza a frequencia da minha linha da minha vida, da vibração que eu eu vivo, do jeito que o universo corresponde nessa dimensão.
Um problema que vai além do calculo, além da matemática, uma situação dramática, que se não tivesse acontecido, tudo poderia ser diferente. São picotes de papel, recortes de jornais, e essa porra toda, onde está? O sentido da vida?
Eu ainda não desapareci, mas olhei o sol no jardim...
Sei que o ovo cósmico não se quebrou por acaso, e no final das contas, eu só peço a Deus, estar no lugar certo e na hora certa, e decidir o que vai acontecer depois, e arcar com as consequencias, mas sabendo que sou o que eu quero ser, e seguir por onde vou, sabendo onde piso.

e de preferencia com uma garrafa de cachaça e meus amigos estimados.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Poema de sexta - 2

Amei-te por te amar

Amei-te e por te amar
Só a ti eu não via...
Eras o céu e o mar,
Eras a noite e o dia...
Só quando te perdi
É que eu te conheci...

Quando te tinha diante
Do meu olhar submerso
Não eras minha amante...
Eras o Universo...
Agora que te não tenho,
És só do teu tamanho.

Estavas-me longe na alma,
Por isso eu não te via...
Presença em mim tão calma,
Que eu a não sentia.
Só quando meu ser te perdeu
Vi que não eras eu.

Não sei o que eras. Creio
Que o meu modo de olhar,
Meu sentir meu anseio
Meu jeito de pensar...
Eras minha alma, fora
Do Lugar e da Hora...

Hoje eu busco-te e choro
Por te poder achar
Não sequer te memoro
Como te tive a amar...
Nem foste um sonho meu...
Porque te choro eu?

Não sei... Perdi-te, e és hoje
Real no [...] real...
Como a hora que foge,
Foges e tudo é igual
A si-próprio e é tão triste
O que vejo que existe.

Em que és [...] fictício,
Em que tempo parado
Foste o (...) cilício
Que quando em fé fechado
Não sentia e hoje sinto
Que acordo e não me minto...

[...] tuas mãos, contudo,Sinto nas minhas mãos,
Nosso olhar fixo e mudo
Quantos momentos vãos
Pra além de nós viveu
Nem nosso, teu ou meu...

Quantas vezes sentimos
Alma nosso contacto
Quantas vezes seguimos
Pelo caminho abstrato
Que vai entre alma e alma...
Horas de inquieta calma!

E hoje pergunto em mim
Quem foi que amei, beijei
Com quem perdi o fim
Aos sonhos que sonhei...
Procuro-te e nem vejo
O meu próprio desejo...

Que foi real em nós?
Que houve em nós de sonho?
De que Nós fomos de que voz
O duplo eco risonhoQue unidade tivemos?
O que foi que perdemos?

Nós não sonhamos. Eras
Real e eu era real.
Tuas mãos - tão sinceras...
Meu gesto - tão leal...
Tu e eu lado a lado...
Isto... e isto acabado...

Como houve em nós amor
E deixou de o haver?
Sei que hoje é vaga dor
O que era então prazer...
Mas não sei que passou
Por nós e acordou...

Amamo-nos deveras?
Amamo-nos ainda?
Se penso vejo que eras
A mesma que és... E finda
Tudo o que foi o amor;
Assim quase sem dor.

Sem dor... Um pasmo vago
De ter havido amar...
Quase que me embriago
De mal poder pensar...
O que mudou e onde?
O que é que em nós se esconde?

Talvez sintas como eu
E não saibas senti-o...
Ser é ser nosso véu
Amar é encobri-o,
Hoje que te deixei
É que sei que te amei...

Somos a nossa bruma...
É pra dentro que vemos...
Caem-nos uma a uma
As compreensões que temos
E ficamos no frio
Do Universo vazio...

Que importa? Se o que foi
Entre nós foi amor,
Se por te amar me dói
Já não te amar, e a dor
Tem um íntimo sentido,
Nada será perdido...

E além de nós, no Agora
Que não nos tem por véus
Viveremos a Hora
Virados para Deus
E n'um (...) mudo
Compreenderemos tudo.

Fernando Pessoa

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Sweet child o' mine

Ela envolveu a si mesma com seus braços, quase como em um demorado abraço. Suspirou profundamente, um pouco entediada com a aula que assistia, um pouco confusa com a vida que vivia. Seus olhos voaram à sua mão esquerda, em busca do horário. Quase. Ela já começara a guardar os materiais em sua bolsa quando o estridente ring soou. Então a garota de cabelos negros e cheiro almíscar ergueu-se com graça de sua classe, e avançou com leveza pelos corredores, cabeça baixa, olhos erguidos. Demorou-se por um momento observando o imundo banco a sua frente, mas enfim sentou-se, sozinha. Sozinha. Por que seus olhos são tão tristes, garota, por quê?
Embora sua cabeça continuasse baixada e coberta por um capuz, o qual escondia seus cabelos cor da noite, a garota mostrava-se uma observadora perspicaz; seus olhos, vez ou outra, perseguiam alguém que ela considerasse digno de atenção, mas nunca passavam disso. A garota de cheiro almíscar brincava displicente com um fio de seu casaco quando o garoto de olhos castanhos aproximou-se dela. Ele sentou-se ao seu lado, nem dizer uma palavra sequer. E assim ficaram por longos minutos. A garota, primeiramente, tentou simplesmente ignorá-lo, mas falhou; ele, assim como todos os outros, a irritava. Ela também não sairia dali repentinamente, pois assim sentir-se-ia derrotada por aquele importuno – e corajoso – garoto que ousou cruzar seu caminho. O garoto de olhos castanhos, porém, sentia-se muito tranquilo, e iria terminar o que começou a qualquer custo; havia algo fascinante com aquela garota. Por que seus olhos fogem dos meus, garota, por quê?
O silêncio permaneceu entre os dois, conciso, absoluto. A garota continuava a ignorar o castanho-claro dos olhos que a fitavam, e o portador desses olhos mantinha-se olhando, fascinado, para a garota ao seu lado. Ela pensava, quase como um mantra: “ele irá embora, ele irá embora, ele irá embora”. Ele não foi. O garoto, enquanto olhava, de soslaio, o par de olhos vivos escondidos por uma cortina de cabelos negros, pensava: “uma hora ela irá desistir e então falará comigo”. Ela não desistiu. Por que seus lábios não me dão um sorriso, garota, por quê?
Já haviam se passado dez minutos, logo faltavam apenas cinco para ambos jovens arrastarem-se de volta para suas salas de aula. O momento das últimas cartadas, das considerações finais. De um lado do banco, a campeã: a garota-que-quebrou-seu-coração-e-prometera-nunca-mais-quebrar, lutando com astúcia para ignorar seu adversário. Do outro lado do banco, o desafiante: o garoto-de-olhos-castanhos-que-sentiu-se-fascinado-por-uma-garota, batalhando apenas para descobrir um nome, e talvez com sorte, um telefone. Com a iminência do fim do round, o garoto largou a cautela e disparou um singelo “Olá.”. A garota estremeceu. Olhou-o com o canto dos olhos, e só então notou que a cor de seus olhos era castanha. Ela adorava olhos castanhos. Tic-tac, tic-tac, tic-tac. O tempo passava sem pausa, e os corações de ambos batiam apressados. Um com esperança de receber um nome, e talvez com sorte, um telefone; outro com a tensão da indecisão, com a dor de um amor perdido, com a proximidade de um contato. Finalmente, o olhar dos dois se cruzaram. Nenhum ruído era audível naquele momento, exceto, talvez, o farfalhar das árvores sobre a cabeça dos dois jovens. Silêncio, apenas silêncio. Por que seus braços não me seguram em um abraço, garota, por quê?
Por fim, foi só silêncio. Acaso, destino, fatalidade, nunca se saberá. O que houve foi uma garota de cabelos negros e cheiro almíscar olhando para um garoto de olhos castanhos, garoto que disse “olá” e que queria um nome, e talvez com sorte, um telefone. Depois houve um ring estridente, e fileiras de jovens caminhando desanimados na direção de suas salas, e um garoto de olhos castanhos abandonando uma garota de cabelos negros em um banco imundo. A garota ainda murmurou, baixinho: “Olá”. Ele nem ouvi. Ela suspirou profundamente, envolveu a si mesma com seus braços, e então se foi, caminhando sem pressa, para alguma aula entediante qualquer. Por que você se foi, garota, por quê?

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Poema de sexta

"Gosto do jeito que você me olha
Que você fala, que você hesita
Sonho com o jeito que você sorri
E tal sorriso me contagia

Se me distraio, ouço sua voz
Pálida, distante
E a saudade vem onipotente
Matando-me a cada instante

Faço versos para lhe falar
O que seus ouvidos não querem escutar
Faço versos para lhe dizer
Que preciso de você

Não tenho mais nada a esconder
Pois é por seu nome que clamo
Apenas entenda uma coisa
:
Eu te amo"

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Novo de novo

Aqueles que já frequentavam o blog notaram que o visual ficou completamente diferente. Mudei porque o template anterior tornava a leitura cansativa, o que faz até o mais corajoso leitor sair sem pestanejar. O novo estilo do blog resolveu dois problemas: a dificuldade de leitura que há em textos com fundo em preto e a coluna de textos estreita demais. Também tirei textos poluitivos e vou tentar demarcar todos os posts com marcadores, para facilitar o acesso a outras postagens. Acredito que tudo ficou condizente com o blog, que tudo se encaixou bem.
Sinceramente espero que gostem, até porque o blog é feito para aqueles que o leem, então se têm alguma sugestão, crítica, ou o que seja, comentem! /Jou

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Exile on main street - Parte I

Olhei-a com discrição, apenas para ter certeza. Ela permanecia lá, parada, seus olhos sonhadores olhando para um lugar o qual eu não conseguia ver. Tive vontade de me aproximar com meu jeito estabanado, confuso, e segurá-la em um forte abraço, pois era isso que ela necessitava agora. Ela me precisava. E eu não poderia.
Ela ainda não tinha notado minha presença, ou fingia com magistral destreza. Não me espantaria caso ela decidisse me ignorar, até porque as coisas tinham ficado muito confusas entre nós, desde aquele dia. Aquele dia. Foram inúmeras as vezes que voltei sem esforço para aqueles momentos que definiram tanto minha vida quanto a dela. Lembro-me com clareza das lágrimas singelas em seus olhos, lutando com anormal força para não escaparem. Falharam. Recordo-me também do gosto seco que habitava minha garganta, do fogo que ardia sem piedade em meu peito e da palavra que ecoava em minha mente. Perdão. Tal palavra nunca escapou por entre meus lábios, e arrependo-me disso com cada fibra de minha existência.
Decidi que era hora. Já fazia alguns meses, e todas as lágrimas já foram choradas, todos os lamentos foram dados, toda a falta já foi sentida. Seria estupidez tentar evitá-la a todo custo, porque ela vivia de forma indelével em um lugar o qual não é possível evitar: minhas memórias. Lá ela tem aquele sorriso dos dias dourados, aquele riso que ela soltava sem hesitação quando sentia cócegas. Ainda tem seu cheiro de primavera, que insistia em brincar com meu olfato quase sempre. Lá sua voz ainda faz meu coração bater mais forte. Mais forte. E seus olhos brilham como sempre brilharam, sem tristeza, só alegria. Seus olhos...
“Oi” – Disse ela, desarmando qualquer plano posterior meu. E cá estou eu, em um momento que já havia imaginado várias vezes, sem palavras à postos. Só então percebi: não estou pronto. E quando é que se está?
“Olá, Carol, como está você?” – E foi o que pude dizer – mas não o que queria. Gostaria de dizer com todas as letras que sinto muito, que não queria que tudo fosse daquele jeito. Queria falar olhando em seus olhos que ainda a amo, e que estava na hora de deixar tudo para lá. Beije-me, Carol, beije-me...
“Eu tô indo, sabe...” – Respondeu ela, sem entusiasmo.
“Sei...”
E aquele clima pós-relacionamento, pós-dor, pós-amor pairou entre nós. Ela me olhava, talvez um pouco confusa, curiosa. E eu a observava certamente embasbacado, com minha cara patética. Para minha surpresa, ela riu:
“Você vai ficar aí de pé, me olhando como se eu fosse uma assombração, ou vai se sentar aqui do meu lado?”
Se não fosse o espanto, eu cairia na gargalhada; tinha me esquecido do jeito que ela mexia a cabeça quando estava irritava. E tinha me esquecido do quanto adorava isso. E a obedeci sem pestanejar. Enquanto eu caminhava para sentar-me o mais próximo dela possível, vi seus olhos vivos seguindo-me enquanto sua boca se crispava em um riso espontâneo. Eu suspirei. Tinha me esquecido o quanto eu adorava esse riso.
Mais uma vez, eu estava perto dela. Dolorosamente perto. Tão próximo que se eu estendesse meu braço seria capaz de arrastar meus dedos por seus cabelos. Seus cabelos. Tinha me esquecido o quanto eles eram cintilantes, e o jeito que eles mexiam-se quando Carol girava sua cabeça. Como eu pude ser capaz de esquecer detalhes tão importantes?
“Você parece bem, Daniel. E você deixou sua barba crescer.” – Sentenciou ela, absoluta. Corri meus dedos pela minha barba, quase involuntariamente. Ela notara.
“É, eu quis mudar um pouco. Você parece ótima, também. Quero dizer, você continua ótima, como sempre, mas quero dizer que está melhor, não que antes você não fosse ótima também, mas é que agora...”
Ela interrompeu o meu desastre verbal com uma risada sonora. Eu corei e ri também, odiando-me por ser tão idiota.
“Eu entendi” – Completou ela – “Eu sempre gostei do jeito como você se atrapalha quando está nervoso. Você fica engraçado e fofo.” – Agora quem corou levemente foi ela, formando pequenas covinhas no canto de suas bochechas enquanto esboçava um sorriso.
Uma dor conhecida e até extinta rugiu sem restrições em meu peito, e então eu tomei por consciência: eu estava irremediavelmente, e novamente, apaixonado pela garota à minha frente.

sábado, 4 de setembro de 2010

Nothing equals the splendor

Tudo o que eu desejava dizer aqui, hoje, já foi escrito. Leiam este trecho, e assim quando puderem, o livro também.

(Trechos retirados do livro "A Menina que Roubava Livros")

No começo, Liesel não conseguiu dizer nada. Talvez fosse a súbita turbulência do amor que sentiu por ele. Ou será que sempre o tinha amado? Era provável. Impedida como estava de falar, desejou que ele a beijasse. Quis que ele arrastasse sua mão e a puxasse para si. Não importava onde a beijasse. Na boca, no pescoço, na face. Sua pele estava vazia para o beijo, esperando.
Anos antes, quando os dois haviam apostado corrida num campo lamacento, Rudy era um conjunto de ossos montado às pressas, com um riso irregular e hesitante. Sob o arvoredo, nessa tarde, era um doador de pão e ursinhos de pelúcia. Um tríplice campeão de atletismo da Juventude Hitlerista. Era seu melhor amigo. E estava a um mês de sua morte.
- É claro que falei de você com ele – disse Liesel.
Estava se despedindo, e nem sabia.

...

Havia pijamas assustados e rostos rasgados. Foi o cabelo do menino que ela viu primeiro.

Rudy?

Em seguida, fez mais do que apenas mover os lábios para enunciar a palavra.
- Rudy?
Ele estava deitado com seus cabelos amarelos e os olhos fechados, e a menina que roubava livros correu em sua direção e desabou. Deixou cair o livro preto.
- Rudy, acorde – soluçou. Agarrou-o pela camisa e lhe deu a mais leve sacudidela incrédula. – Acorde, Rudy – e já então, enquanto o céu continuava a esquentar e a despejar uma chuva de cinzas, Liesel agarrava o peito da camisa de Rudy Steiner. – Rudy, por favor – e as lágrimas se engalfinhavam com seu rosto. – Rudy, por favor, acorde, que diabo, acorde, eu amo você. Ande, Rudy, vamos, Jesse Owens, não sabe que eu amo você? Acorde, acorde, acorde...
Mas nada se importou.
Os destroços apenas subiram, mais altos. Montanhas de concreto com tampas de vermelho. E uma linda menina, pisoteada pelas lágrimas, sacudindo os mortos.
- Vamos, Jesse Owens...
Mas o menino não acordou.
Incrédula, Liesel afundou a cabeça no peito de Rudy. Segurou seu corpo amolecido, tentando impedir que pendesse para trás, até que precisou devolvê-lo ao chão massacrado. E o fez com delicadeza.
Devagar. Devagar.
- Meu Deus, Rudy...
Inclinou-se, olhou para seu rosto sem vida, e então beijou a boca de seu melhor amigo, Rudy Steiner, com suavidade e verdade. Ele tinha um gosto poeirento e adocicado. Um gosto de arrependimento à sombra do arvoredo e na penumbra da coleção de ternos do anarquista. Liesel beijou-o demoradamente, suavemente, e, quando se afastou, tocou-lhe a boca com os dedos. Suas mãos estavam trêmulas, seus lábios eram carnudos, e ela se inclinou mais uma vez, agora perdendo o controle e fazendo um erro de cálculo. Os dentes dos dois se chocaram no mundo demolido da Rua Himmel.
Liesel não disse adeus. Foi incapaz de fazê-lo e, após mais alguns minutos ao lado do amigo, conseguiu levantar-se do chão. Fico impressionada com o que os seres humanos são capazes de fazer, mesmo quando há torrentes a lhes descer pelos rostos e eles avançam cambaleando, tossindo e procurando, e encontrando.