segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Exile on main street - Parte I

Olhei-a com discrição, apenas para ter certeza. Ela permanecia lá, parada, seus olhos sonhadores olhando para um lugar o qual eu não conseguia ver. Tive vontade de me aproximar com meu jeito estabanado, confuso, e segurá-la em um forte abraço, pois era isso que ela necessitava agora. Ela me precisava. E eu não poderia.
Ela ainda não tinha notado minha presença, ou fingia com magistral destreza. Não me espantaria caso ela decidisse me ignorar, até porque as coisas tinham ficado muito confusas entre nós, desde aquele dia. Aquele dia. Foram inúmeras as vezes que voltei sem esforço para aqueles momentos que definiram tanto minha vida quanto a dela. Lembro-me com clareza das lágrimas singelas em seus olhos, lutando com anormal força para não escaparem. Falharam. Recordo-me também do gosto seco que habitava minha garganta, do fogo que ardia sem piedade em meu peito e da palavra que ecoava em minha mente. Perdão. Tal palavra nunca escapou por entre meus lábios, e arrependo-me disso com cada fibra de minha existência.
Decidi que era hora. Já fazia alguns meses, e todas as lágrimas já foram choradas, todos os lamentos foram dados, toda a falta já foi sentida. Seria estupidez tentar evitá-la a todo custo, porque ela vivia de forma indelével em um lugar o qual não é possível evitar: minhas memórias. Lá ela tem aquele sorriso dos dias dourados, aquele riso que ela soltava sem hesitação quando sentia cócegas. Ainda tem seu cheiro de primavera, que insistia em brincar com meu olfato quase sempre. Lá sua voz ainda faz meu coração bater mais forte. Mais forte. E seus olhos brilham como sempre brilharam, sem tristeza, só alegria. Seus olhos...
“Oi” – Disse ela, desarmando qualquer plano posterior meu. E cá estou eu, em um momento que já havia imaginado várias vezes, sem palavras à postos. Só então percebi: não estou pronto. E quando é que se está?
“Olá, Carol, como está você?” – E foi o que pude dizer – mas não o que queria. Gostaria de dizer com todas as letras que sinto muito, que não queria que tudo fosse daquele jeito. Queria falar olhando em seus olhos que ainda a amo, e que estava na hora de deixar tudo para lá. Beije-me, Carol, beije-me...
“Eu tô indo, sabe...” – Respondeu ela, sem entusiasmo.
“Sei...”
E aquele clima pós-relacionamento, pós-dor, pós-amor pairou entre nós. Ela me olhava, talvez um pouco confusa, curiosa. E eu a observava certamente embasbacado, com minha cara patética. Para minha surpresa, ela riu:
“Você vai ficar aí de pé, me olhando como se eu fosse uma assombração, ou vai se sentar aqui do meu lado?”
Se não fosse o espanto, eu cairia na gargalhada; tinha me esquecido do jeito que ela mexia a cabeça quando estava irritava. E tinha me esquecido do quanto adorava isso. E a obedeci sem pestanejar. Enquanto eu caminhava para sentar-me o mais próximo dela possível, vi seus olhos vivos seguindo-me enquanto sua boca se crispava em um riso espontâneo. Eu suspirei. Tinha me esquecido o quanto eu adorava esse riso.
Mais uma vez, eu estava perto dela. Dolorosamente perto. Tão próximo que se eu estendesse meu braço seria capaz de arrastar meus dedos por seus cabelos. Seus cabelos. Tinha me esquecido o quanto eles eram cintilantes, e o jeito que eles mexiam-se quando Carol girava sua cabeça. Como eu pude ser capaz de esquecer detalhes tão importantes?
“Você parece bem, Daniel. E você deixou sua barba crescer.” – Sentenciou ela, absoluta. Corri meus dedos pela minha barba, quase involuntariamente. Ela notara.
“É, eu quis mudar um pouco. Você parece ótima, também. Quero dizer, você continua ótima, como sempre, mas quero dizer que está melhor, não que antes você não fosse ótima também, mas é que agora...”
Ela interrompeu o meu desastre verbal com uma risada sonora. Eu corei e ri também, odiando-me por ser tão idiota.
“Eu entendi” – Completou ela – “Eu sempre gostei do jeito como você se atrapalha quando está nervoso. Você fica engraçado e fofo.” – Agora quem corou levemente foi ela, formando pequenas covinhas no canto de suas bochechas enquanto esboçava um sorriso.
Uma dor conhecida e até extinta rugiu sem restrições em meu peito, e então eu tomei por consciência: eu estava irremediavelmente, e novamente, apaixonado pela garota à minha frente.

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