sexta-feira, 2 de abril de 2010

Capítulo 2 - A voz

Não pude deixar de, logo após acordar, ler novamente o papel já amassado que estava ao lado de minha cama. Com a característica caligrafia de Marian, lá estava escrito:

“Nathan, desculpe-me caso o assustei, mas é realmente necessário discrição. Existem certas coisas que você não sabe sobre mim, coisas que você não gostaria de saber. Mas você tem o direito, e talvez – e como eu gostaria - você possa me ajudar. Rua Ben J. Franklin, 247, amanhã, às 19h30min. Vá sozinho, e eu te amo.”

Exatamente como das outras vezes, não consegui tirar nenhuma conclusão definitiva do improvisado recado de Marian. Eu não conseguia, de forma alguma, imaginar Marian cercada de mistérios, e estremeci só de pensar, em perigos. Tentei ligar para a ela durante toda a noite, inutilmente. Ela, definitivamente, não estava disposta a falar o que quer que seja comigo. Então, só me restou uma esperança, uma chance: o endereço.
Sabia onde ficava aquela rua, em um bairro industrial da cidade. E por nada deste, e do outro, mundo, deixarei de estar lá, no horário marcado.
Meu dia foi confuso. Passei grande parte dele pensando em Marian, minha vida, temendo que haja qualquer coisa que possa impedi-la de estar em meus braços. Quando o relógio já marcava 18h30min, uma onde de tensão percorreu meu corpo, a adrenalina fazendo seu sujo trabalho. Quase sem querer, me lembrei da primeira vez que vi minha luz, minha Marian:


“Estou tão entediado!” – eu murmurei, exclusivamente para mim. Enquanto mexia meu copo de um lado para o outro, irritantemente, avaliava todos naquele lugar. A casa de Dan estava entupida de gente, com o som alto ressonando por todo lugar. Enquanto os mais “populares” faziam tudo a seus alcances para chamar a atenção alheia, os mais tímidos tremiam quando puxavam papo com alguma garota. As garotas, é claro, formavam um círculo sobre os caras mais “populares”, rindo sem achar graça, perdendo-se em suas falsidades. E eu estava sentando em uma poltrona, bebendo alguma coisa qualquer, naquela cinzenta festa. Nunca entendi o porquê, mas sempre me consideravam um cara popular, mesmo eu sendo esquisito e desapropriadamente romântico e filosófico. Bom, ser considerado “cool” tinha suas vantagens, admito. Sempre foi muito conveniente.
Dan apareceu, bêbado, muito bêbado, e gritou:
“Nathan, seu safado!” – Dan era um cara moreno, atlético, com um rosto redondo. Ofereceu-me mais bebida e eu girei meu copo, em sinal de negação. Já estava embriagado o suficiente, sabia eu. Então Dan me agarrou, e falou, meio enrolado:
“Tenho que te apresentar alguém, aquele alguém.”
Eu suspirei. Ele e essa mania de querer me arrumar namoradas. Mas não pude fazer nada, já que quando eu percebi, estava sendo arrastado por dentro da sala.
No momento que estacionei, vi o mundo girar em minha volta. Quando, finalmente, o foco voltou para mim, meu coração parou: tinha em minha frente a criatura mais perfeita que já nasceu.
Marian estava lá, sentada num sofá, conversando com outras garotas – suas amigas, imaginei. Era possível ler em sua face tédio enquanto conversava. Eu congelei, e Dan, discreto e sensível como uma manada de javalis, gritou:
“Marian, tenho alguém para te apresentar!” – Então Daniel a agarrou, ou melhor, a arrancou do sofá, e a trouxe para perto de mim. A face de Marian queimou-se de vermelho assim que me viu. Mas não desviou o olhar de mim. Nunca.
Marian não é tímida, mas, às vezes, é demasiadamente insegura de si. Quando eu disse um singelo “oi”, e ela me respondeu, soube na hora que passaria o resto da minha vida com aquela mais que perfeita garota.”


Toda a viagem até Rua Ben J. Franklin, 247, foi cheia de tensão. Paguei o taxista, que agradeceu com empolgação minha gorjeta. Imagens e emoções desconexas passavam por mim, e só tinha algo em mente. Ela. Segurei firme o papel que ela escrevera, e foquei minha vontade, meus pensamentos e meus desejos em um só objetivo: chegar ao local onde ela me indicara. A Rua Bem J. Franklin era cinzenta, como todas as outras ruas das áreas industriais. Um cheiro acre perpetuava o local, tão forte que meu nariz começou a formigar. E eu avancei, sem pestanejar. N° 239, ° 245, e, finalmente, N° 247. A porta onde estava marcada esse número era pintada num tom verde claro, opaco, já descascando com o tempo. Pertencia a um galpão abandonado, mas com as luzes acessas. Senti, pela primeira vez, medo por mim, mas não hesitei. Meu relógio marcava exatamente 19h30min no instante em que coloquei minha mão na maçaneta e a girei. A porta ruidosamente se abriu, e no instante que meus olhos puderam ver lá dentro, eu congelei, vendo algo que jamais desejaria ver em toda minha vida. O que aconteceu depois, ainda é quase impossível de lembrar, mas podia jurar que ouvi a doce voz de Marian, num tom urgente, em meus ouvidos.

2 comentários:

Unknown disse...

PUTA QUE PARIU! adorei! seu merda, vai fazer um livro ♥

Jou disse...

Capítulo 3 já está por vim :)
Certamente, depois de pronto este conto vai para algum livro meu =]

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