Já era tarde, mas eu simplesmente não me cansava de ler aquelas palavras. O timbre silencioso da fria noite parecia me aconchegar, me abraçar num gracejo indesejado, desconfortável, até. Mas eu não podia, não iria, não deveria parar de ler aquelas palavras. Parecia-me que despertei de um longo sono, cheio de sonhos confusos e pensamentos difusos, e só após abrir meus olhos, pude então notar que havia uma luz no fim do túnel. Uma luz com nome e sobrenome, uma luz que respirava. A parte mais doce do sonho é aquela que ainda não aconteceu.
A difusa mistura de cheiros do café em mão me ajudava, de uma forma nada ortodoxa, a despertar. Manteve-me consciente o suficiente para ler, só mais uma vez, as palavras que em minha frente insistiam em aparecer. E meu coração bateu, descompassado; não o culpo. Ninguém pode culpá-lo, pois ele nunca teve culpa. Só fez aquilo que deveria fazer, aquilo que a ele foi incumbido sentir. Não importava quantas vezes tentasse, quantas vezes lutasse contra o inevitavelmente inalterável, sempre voltava para onde comecei: com aquelas palavras. As palavras acendiam uma luz que há muito fora apagada, as palavras que podiam tudo mudar – mas, temia, apenas em minha incoerente mente. A verdade é tão mutável quanto um pensamento. Aquilo que meus interpretaram pode ter sido tão diferente – e quanto eu temo! – daquilo que você quis dizer.
E então eu caí. Num sono limpo, claro. Sem chances de defesas, meu corpo venceu a minha já abalada consciência. Tão longe, já não podia distinguir o real do imaginário, o verdadeiro do especulativo, se aquilo que eu via era realmente o que acontecia. Minha mente me abrigava de maneiras das quais nem podia imaginar. Protegia-me da escuridão, e trazia, quase que num sopro, as nossas memórias, o teu rosto, as tuas palavras.
Queria saber por que não foi todo o tempo assim. Por que a vida, quase irônica, teve que dar tamanhas voltas antes de fazer a coisa certa a fazer. Queria saber se o que eu sentia era o que você sentia. Queria saber a verdade, só a verdade. Enquanto houver tempo, haverá esperança, haverá luz.
No final das contas, eu só queria que nós soubéssemos. E no fundo, a gente sabe.
quarta-feira, 2 de junho de 2010
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