O relógio parecia estar em uma disputa pessoal comigo, porque as horas pareciam se arrastar lentamente nessa noite. Não que o jantar estivesse ruim; ao contrário, a comida estava deliciosa. E nem porque a companhia era desagradável – eram todos amigos, e minha namorada, que agora segurava docemente minha mão, sem dúvida me amava. Mas eu me sentia no lugar errado. Fora de sintonia, talvez. Enquanto todos os risos eram verdadeiros, o meu era falso. Enquanto toda a felicidade cintilava, a minha era opaca. Sentia-me em um jogo de cartas marcadas, aonde não importava como eu me sentia; a única coisa importante era que eu estivesse lá.
Cecília, minha namorada, desvencilhou-se de suas amigas e virou seu rosto para mim:
- Tudo bem com você, Marcos? – Como eu seria capaz de magoar aqueles olhos verdes cheios de bondade que me fitavam? Menti.
- É claro, querida. – Esbocei um sorriso qualquer, e continuei – Eu só estou um pouco cansado, nada demais.
Ela pareceu aliviada, e então se voltou para a ininterrupta conversa que a envolvia. Daniel, namorado de Cristina, melhor amiga de Cecília, fez algum sinal incompreensível para mim. Notando a minha falta de entendimento, aproximou-se.
- Ei cara, vamos lá para a sala. Você deve estar ficando louco cercado por todas as garotas aqui. – Todas elas riram, e eu por obrigação, também. Não é que eu desgostasse Daniel e todos os outros namorados-das-amigas-de-minha-namorada, mas eles não eram meus amigos. Cecília parecia não compreender isso. Entretanto, eu seria um monstro se levasse tristeza àqueles olhos verdes, então só seguia e fazia, sem pensar muito.
A lasanha estava gostosa, mas o prato que eu deixava para trás estava quase cheio. Eu não tinha muita fome. Nunca gostei de jantares em grupos, sempre hipócritas, e meu apetite parecia se afetar com isso. Todos os “garotos” estavam na sala de estar, a apenas alguns passos da cozinha. Até era possível ouvir as conversas de ambos os grupos se cruzando. Mas ninguém, fora eu, pareceu se importar. William, novo namorado da pior amiga de Cecília, cumprimentou-me.
- Você continua caladão, Marcos.
- Melhor ficar de boca fechada e todos pensarem que você é idiota, do que abrir para todos terem certeza. – Ele levou um tempo para entender, mas depois riu alto. É uma indireta, seu idiota.
- Me pegou nessa. Fala aí: fiquei sabendo que você trabalha em uma revista de mulher pelada. É sério?
- Na verdade, são só fotos sensuais. Eu só escrevo artigos e...
Nunca terminei a frase. Gabriel, amigo de longa data de todos ali, uma pessoa por quem eu tinha anormal empatia, entrou na sala. Isso não seria grande acontecimento, se não fosse ele estar acompanhado por ela. Ela. Aquela por quem eu tinha rido, chorado, gritado, lutado, desistido. Carol, minha ex-namorada, agora vinha em minha direção de mãos dadas com Gabriel. Destino, seu filho da mãe, o quê eu fiz para você?
Ela manteve-se deslumbrante. Esses muitos meses pouco haviam mudado nela. Os cabelos cor de mel continuam lisos, brilhosos. Seus olhos castanhos continuam límpidos, misteriosos. Carol estava mais Carol do que nunca.
- Opa pessoal, essa é Caroline, minha nova namorada. Carol, esses safados aqui são William, Daniel, Carlos e Marcos.
Eu estava atônito, absoluta e indiscutivelmente paralisado.
Ela, entretanto, pareceu completamente ilesa a mim. Eu acredito que ela vacilou, apenas um pouco, quando ouviu meu nome e notou meu rosto. Nada mais. Carol sempre foi tão forte, então não seria agora que hesitaria.
O sofá rangeu no espaço vazio ao meu lado. Cecília havia se sentando lá, e agora seus braços me envolviam em um displicente abraço. Seus olhos verdes me olhavam atentos, e logo perceberam minha tensão.
- Amor, tem certeza que você tá legal? Está parecendo tão estranho...
Eu não respondi. Só a beijei sem emoção na face, e então segurei sua mão com força. Sabia que seria o suficiente, e para minha felicidade, foi. Não aguentava discussões com Cecília: ela era tão doce, tal ingênua, inocente, impunível.
Procurei Carol, que agora estava abraçada em Gabriel. Abraçada da mesma maneira que ela, há não muito, me abraçava. Duas opções: ou ela me ignorava com notável habilidade, ou ela realmente não importava com minha presença ali. Droga, por que Gabriel tinha que encontrar justo com ela? Por que ela tinha que aceitar que sair com ele, e pior, namorá-lo? E o mais importante: por que eu tinha que, mesmo depois de tudo, amá-la com todas as fibras do meu ser?
Cecília, minha namorada, desvencilhou-se de suas amigas e virou seu rosto para mim:
- Tudo bem com você, Marcos? – Como eu seria capaz de magoar aqueles olhos verdes cheios de bondade que me fitavam? Menti.
- É claro, querida. – Esbocei um sorriso qualquer, e continuei – Eu só estou um pouco cansado, nada demais.
Ela pareceu aliviada, e então se voltou para a ininterrupta conversa que a envolvia. Daniel, namorado de Cristina, melhor amiga de Cecília, fez algum sinal incompreensível para mim. Notando a minha falta de entendimento, aproximou-se.
- Ei cara, vamos lá para a sala. Você deve estar ficando louco cercado por todas as garotas aqui. – Todas elas riram, e eu por obrigação, também. Não é que eu desgostasse Daniel e todos os outros namorados-das-amigas-de-minha-namorada, mas eles não eram meus amigos. Cecília parecia não compreender isso. Entretanto, eu seria um monstro se levasse tristeza àqueles olhos verdes, então só seguia e fazia, sem pensar muito.
A lasanha estava gostosa, mas o prato que eu deixava para trás estava quase cheio. Eu não tinha muita fome. Nunca gostei de jantares em grupos, sempre hipócritas, e meu apetite parecia se afetar com isso. Todos os “garotos” estavam na sala de estar, a apenas alguns passos da cozinha. Até era possível ouvir as conversas de ambos os grupos se cruzando. Mas ninguém, fora eu, pareceu se importar. William, novo namorado da pior amiga de Cecília, cumprimentou-me.
- Você continua caladão, Marcos.
- Melhor ficar de boca fechada e todos pensarem que você é idiota, do que abrir para todos terem certeza. – Ele levou um tempo para entender, mas depois riu alto. É uma indireta, seu idiota.
- Me pegou nessa. Fala aí: fiquei sabendo que você trabalha em uma revista de mulher pelada. É sério?
- Na verdade, são só fotos sensuais. Eu só escrevo artigos e...
Nunca terminei a frase. Gabriel, amigo de longa data de todos ali, uma pessoa por quem eu tinha anormal empatia, entrou na sala. Isso não seria grande acontecimento, se não fosse ele estar acompanhado por ela. Ela. Aquela por quem eu tinha rido, chorado, gritado, lutado, desistido. Carol, minha ex-namorada, agora vinha em minha direção de mãos dadas com Gabriel. Destino, seu filho da mãe, o quê eu fiz para você?
Ela manteve-se deslumbrante. Esses muitos meses pouco haviam mudado nela. Os cabelos cor de mel continuam lisos, brilhosos. Seus olhos castanhos continuam límpidos, misteriosos. Carol estava mais Carol do que nunca.
- Opa pessoal, essa é Caroline, minha nova namorada. Carol, esses safados aqui são William, Daniel, Carlos e Marcos.
Eu estava atônito, absoluta e indiscutivelmente paralisado.
Ela, entretanto, pareceu completamente ilesa a mim. Eu acredito que ela vacilou, apenas um pouco, quando ouviu meu nome e notou meu rosto. Nada mais. Carol sempre foi tão forte, então não seria agora que hesitaria.
O sofá rangeu no espaço vazio ao meu lado. Cecília havia se sentando lá, e agora seus braços me envolviam em um displicente abraço. Seus olhos verdes me olhavam atentos, e logo perceberam minha tensão.
- Amor, tem certeza que você tá legal? Está parecendo tão estranho...
Eu não respondi. Só a beijei sem emoção na face, e então segurei sua mão com força. Sabia que seria o suficiente, e para minha felicidade, foi. Não aguentava discussões com Cecília: ela era tão doce, tal ingênua, inocente, impunível.
Procurei Carol, que agora estava abraçada em Gabriel. Abraçada da mesma maneira que ela, há não muito, me abraçava. Duas opções: ou ela me ignorava com notável habilidade, ou ela realmente não importava com minha presença ali. Droga, por que Gabriel tinha que encontrar justo com ela? Por que ela tinha que aceitar que sair com ele, e pior, namorá-lo? E o mais importante: por que eu tinha que, mesmo depois de tudo, amá-la com todas as fibras do meu ser?
A noite ia vagarosamente, e a alegria do recinto também. Risos, palmas, piadas, tudo não passava disso. Espera: havia também uma Cecília que me abraçava, que me amava, e uma Carol que agora me ignorava, de mãos dadas com Gabriel. Meu coração ainda batia forte por aquela garota de olhos misteriosos e sorriso estupendo. Não que eu não amasse Cecília; eu era apaixonado por ela, mas não da mesma maneira. Não da forma maluca, inconsequente, incoerente, impossível que eu era por Carol. Maldita garota perfeita.
Carol levantou-se, e foi até a cozinha, não sem antes dar uma piscadela discreta para mim. Meu coração bateu forte, como há muito não fazia. Dei uma desculpa qualquer à Cecília, e então segui a garota que odiava e amava. Ela escrevia febrilmente em um papel, que me entregou, sem dizer uma palavra. Lá havia oito números e a silenciosa letra “C.”. Ela foi mais rápida do que eu, e já estava de volta aos braços de Gabriel quando eu finalmente notei o quê havia acontecido. Ah, garota, por que você tem que brincar dessa maneira comigo! Salvei o número em meu celular, e voltei à sala, puxando Cecília para mim com meus braços. Ela sorriu.
Gabriel e Carol levantaram-se para sair, e após cumprimentar a todos, foram-se, com Carol sorrindo de forma travessa em minha direção.
Depois dessa noite, Carol nunca mais sairia de minha vida, e nunca mais da dela, por eternos meses. Pobre Cecília, com seus olhos verdes inocentes, que nunca foram capazes de ver o que estava mais do que visível. Eu fui um monstro, eu sou um monstro, eu eternamente serei um monstro. Culpa de Caroline, apenas e exclusivamente dela. Maldita garota perfeita.
Carol levantou-se, e foi até a cozinha, não sem antes dar uma piscadela discreta para mim. Meu coração bateu forte, como há muito não fazia. Dei uma desculpa qualquer à Cecília, e então segui a garota que odiava e amava. Ela escrevia febrilmente em um papel, que me entregou, sem dizer uma palavra. Lá havia oito números e a silenciosa letra “C.”. Ela foi mais rápida do que eu, e já estava de volta aos braços de Gabriel quando eu finalmente notei o quê havia acontecido. Ah, garota, por que você tem que brincar dessa maneira comigo! Salvei o número em meu celular, e voltei à sala, puxando Cecília para mim com meus braços. Ela sorriu.
Gabriel e Carol levantaram-se para sair, e após cumprimentar a todos, foram-se, com Carol sorrindo de forma travessa em minha direção.
Depois dessa noite, Carol nunca mais sairia de minha vida, e nunca mais da dela, por eternos meses. Pobre Cecília, com seus olhos verdes inocentes, que nunca foram capazes de ver o que estava mais do que visível. Eu fui um monstro, eu sou um monstro, eu eternamente serei um monstro. Culpa de Caroline, apenas e exclusivamente dela. Maldita garota perfeita.

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