sábado, 2 de outubro de 2010

Beautiful loser

Uma queimação anormal percorreu-lhe todo o corpo: era a dor da despedida. Olhou, mais uma vez, para o mar de rostos que o observavam, aflitos, confusos. Quis lutar. Gritar. Chorar. Correr. Não fez nada disso. Apenas permaneceu parado, olhando. E morrendo, pouco a pouco.
Sua mochila pesava, e o calor do sol o fazia suar. A rodoviária era cinzenta e barulhenta, com pequenos pedaços de história a cada canto. Eles vieram em bando, desajeitados, como de costume. Uns sorriam, outros se mostravam sérios, mas todos sentiam a mesma coisa: a perca. É difícil perder um membro do grupo, um irmão do clã; é difícil perder um amigo. O garoto com a mochila olhou para todos, um a um, e sentiu instantaneamente um aperto no coração. Quis ficar, mas não podia. Quis fugir, mas não podia. Quis parar, mas não iria.
Então abraçou cada um de seus amigos, recebendo tapinhas nas costas ou socos de amizade, sempre recebendo frases como: “se ficar sem dar notícias, te mato, seu safado!”, “vê se voltar para encher a cara com a gente de novo!”, ou, simplesmente, “vou sentir tua falta, cara.”. O garoto sentiu-se feliz, alegre simplesmente por saber que havia pessoas que sentiriam sua falta: seus amigos.
O momento crucial, que ele tanto adiara chegou.
Ela se aproximou, cada tortuoso passo executado com lentidão. Ele controlou o impulso das lágrimas, e então a abraçou. Segurou-a com tamanha força que duvidou que fosse capaz de um dia soltá-la. Deixou perder seu rosto nos cabelos dela, cujo cheiro era delicioso. Ouviu uma cobrança, fez uma promessa:
- Nunca se vá, entendeu? Não importa quanto tempo fiquemos sem nos falar, ainda quero morar aqui – e então apontou para o peito dele, bem no coração.
Ele nada disse. Apenas acenou com a cabeça, e lutou contra as lágrimas mais uma vez. A garota beijou seus lábios, e soube que seria a última vez. Ela sempre soube.
- Eu te amo – disse ele, finalmente. Nada mais. E essas palavras ficaram entre os dois, apertando-os muito mais que um forte abraço. Gotas peroladas agora desciam pelo rosto corado da garota, que com graciosidade, beijou-lhe apenas mais uma vez, e então se foi.
Ela já estava de costas, a alguns metros de distância, quando ele chorou silenciosamente pela primeira vez em anos. Ninguém viu. O garoto entrou no ônibus imponente a sua frente, sabendo que a partir do momento que ultrapassasse aquela porta, muito ganharia, muito perderia. Não hesitou.
O ônibus já saia quando o garoto olhou pela janela uma última vez, com apenas um desejo: encontrar os olhos da garota, nem que seja pela última vez. Eles não estavam lá.

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