A água era fria. A garota deixava-a cair por seu cabelo, descendo com fluência por todo seu corpo. Ela estava de olhos fechados, respirando, pensando. Ficou por mais de cinco minutos com a água percorrendo toda sua existência, levando consigo seus pensamentos, suas dores, sua angústia. Agora ela chorava levemente, lentamente, pequenas gotas peroladas escapando de seus olhos, escondendo-se na imensidão da água que corria livre. Por que a água fria está tão quente?
O cheiro era doce. Ela agora olhava para o espelho a sua frente, seus cabelos castanhos quase negros por estarem molhados. Ela não sentiu a mínima vontade de secá-los, de penteá-los, de nada. Quis manter-se quieta, estável, e assim fez. Secou-se sem vontade, nem esmero. Sentiu a maciez do algodão tocar sua pele, beijando-a com lentidão, com carinho. O espelho estava embaçado agora. Ela lembrou-se de quando era criança e escrevia sem hesitação em espelhos embaçados. Seus dedos deslizaram de lá para cá, e em questões de segundos, um nome pairava na face do pequeno espelho. Apenas um nome. Lágrimas, lágrimas, lágrimas. Por que as lágrimas estão tão frias?
A cama estava quente. Ela estava deitada, olhos no teto, fones no ouvido, pensamentos fora da cabeça. Ela sentiu-se só. Pela primeira vez em muito, muito tempo, ela sentiu-se absolutamente só. E a solidão era mais quente que o cobertor que a cobria. A solidão a consumia tenramente, sem piedade, mas com delicadeza. Que outra opção teria ela a não ser deixar-se perder naquela companheira indesejável? Ela não tinha chances. Por que a noite é sempre tão vazia?
O dia estava nascendo. O sol parecia tímido em seu primeiro cintilar, os primeiros raios fazendo a garota despertar. Mesmo com os olhos abertos, ela manteve-se deitada, imóvel. Ela não soube o que pensar, o que fazer, o que esperar. Mesmo desejando ardentemente dormir o resto do dia, da vida talvez, levantou-se em um pulo ágil, e então se arrastou para o banheiro. Ela não desistiria de sua vida, de forma alguma. Não daria a ele tal prazer. Ela seria feliz, nem que isso custasse cada fibra de sua existência, cada vigor de seu ser. E ela lutaria por sua felicidade até o último suspiro. O nome dele ainda estava marcado no espelho, pálido, mas ainda visível. E na memória da garota, de forma indelével. Por que ferimentos deixam tantas cicatrizes? A vida continua dura. Embora o mundo pareça ter acabado, ele segue sem pausas, sem folgas. E o mundo não teve pena da garota. Muito a ela impôs, muito dela cobrou. E por incrível que pareça, ela não desistiu; havia prometido que não o faria. Até que um dia sua perseguição pela felicidade foi recompensada: ela finalmente estava feliz. Não radiante, não estupenda, apenas feliz. Alegria que veio na forma de um abraço amigo, de um beijo roubado, de um riso imprudente. Das épocas difíceis, agora só resta cicatrizes, que mesmo eternas, ainda são esquecíveis, ignoráveis.
segunda-feira, 11 de outubro de 2010
Starway to heaven
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