Como há muito não fazia, seu silêncio calou-me. Não foi preciso palavras para especificar aquilo que ali, entre nós, acontecia. Ouvi de teus olhos tudo aquilo que precisava escutar; cada palavra insinuante nunca antes dita agora cintilava com clareza perante mim. A falta de som não era incômoda, longe disso: criava entre nós uma conexão que transcendia toda e qualquer compreensão de relacionamento. È isso que éramos, isso que somos: a peça que falta na vida um do outro, ambos com o mesmo pesado fardo de jamais poder completar este vazio.
Então a sua mão veio até a minha, e por ela a doce corrente de plenitude em minha alma entrou. Meu dedo deslizou, sorrateiro, por sua pele macia, e eu senti a cada jaça perfeita que em você existe. Macio, tenro, quente, seu corpo não era apenas convidativo para mim; ele clamava por meu toque, e eu, obedientemente, acatava com prazer. A cada novo tom distinto que notava em você, ficava mais certo de que era errado estar certo sobre você; não há maneiras certas de dominar a idealização do perfeito.
Quando seus lábios úmidos, trêmulos, vieram até os meus, tomei consciência de seu inconfundível odor adocicado, e vi que ele continua o mesmo que antigamente. E seu cheiro trouxe a mim tantas lembranças! Tardes ensolaradas que nunca acabaram, conversas longas e repetitivas que nunca começaram, medos e angústias que nunca existiram. Seu perfume doce, profundo, calmo, parecia pregar uma peça em mim; embaralhava tudo em minha mente, confundia tudo em meu corpo. O entendimento de que esse momento acabaria em dor – como sempre acabou – atacava-me, mas eu ainda tinha esperança de que o sabor de seu cheiro permanece em mim para a eternidade. Talvez...
O gosto de seu beijo, fluente, exaltava-me. Embora uma onda de sentido e sentimentos por mim passasse, era esse gosto que se sobressaia ao demais; inexplicável, inexorável, perfeito. Mesmo tendo conhecimento da finidade do momento, eu não me importava, apenas queria que os poucos segundos que ainda tinha contigo fossem horas, dias, anos, eternidades. Seus lábios acariciam os meus, massageando-me com incomum destreza. Mesmo finito, esse momento tornou-se eterno.
Quando, infelizmente, a eternidade acabou, vi seus olhos a poucos centímetros dos meus. Era estranho como a comum cor castanha ficava tão sintonizada com você, como se você fosse a obra-prima de um talentoso artista. Era um castanho claro, cintilante, tão vivo que chegava a ser assustador, não assustador de uma maneira ruim, mas sim de uma forma boa; assustadoramente surpreendentes. Vi seu rosto, ainda um pouco rosado, e nele tinha sua boca em um sorriso de amor, convidando-me para ser seu, pedindo meu coração. Eu daria de bom gosto, mas como é possível lhe dar algo que já é seu?
Sua voz foi a primeira a ruir o silêncio que já há algum tempo nos cobria. Ela veio como música aos meus ouvidos, trazendo-me tamanha satisfação que refleti como uma coisa tão simples como a sua voz podia ser tão reconfortante para mim. Tomei por conclusão que até as coisas mais singelas, quando ocorrem na hora certa com a pessoa certa, tornam-se momentos especiais.
“Vamos?” – Questionava sua voz, serena, a mim.
“Vamos.” – Disse a minha, um pouco mais que um sussurro grave, mas você entendeu. E lá fomos nós, sorrindo, talvez ainda anestesiados pela explosão de sentidos que acabamos de sentir, ou talvez apenas felizes por termos um ao outro.
quarta-feira, 30 de junho de 2010
Sentidos
Assinar:
Postar comentários (Atom)

2 comentários:
poxa, tu escreve muito bem, muito bem mesmo :D
Obrigado pelo comentário, cara Nicole
Eu tento, tu sabes. Juro que tento. E, às vezes, acontece.
Postar um comentário