sexta-feira, 4 de junho de 2010

Abandon all hope

Àqueles que me apoiaram de forma que eu jamais poderia pagar;
Àquelas por quem caí de amor;
Àqueles que me desviaram no caminho, me colocando no meu caminho;
Àquelas que despedaçaram meu coração;
E a todos eles e elas que, corajosamente, leem o que eu escrevo;
Abandonem toda esperança.


O garoto ficou quase inexpressivo, com uma expressão de terror congelada em seu rosto, enquanto observava a bela garota indo embora. Ele continuou lá, estacionado, até mesmo quando a cálida chuva começou a cair insistente do céu. Não foram mais do que alguns minutos, mas a ele pareceram intermináveis horas de suplício, momentos de intolerável dor.
A garota continuou seguindo seu caminho, a passos largos, tentando com todas suas forças não demonstrar sua hesitação. Ficou satisfeita pela fina chuva que começara a cair, pois ela poderia esconder as lágrimas que em seus olhos brotavam. Seu coração gritava para ela voltar lá e então abraça-lo como nunca fizera antes; mas não havia volta. As decisões são um caminho sem volta.
O garoto, apenas após derramar sua primeira lágrima, levantou-se. Tudo o que ele mais desejava era correr até ela, toma-lá em seus braços e beija-lá com nunca fizera antes. Mas já não podia, não mais; todas suas chances se foram. Dentro de si crescia um monstro incontrolável e destrutivo chamado raiva. E, sabia ele, quando essa criatura fosse liberada, muitos outros viriam com ele: ódio, rancor, medo, inveja, pessimismo... A ideia de viver sem ela finalmente materializou-se em sua frente. Um futuro obscuro e desconhecido, frio e sem luz. Então ele caiu de novo.
A garota, apenas após ficar longe do campo de visão dele, sentou-se no frio e molhado chão, e repousando sua face em suas mãos, deixou-se levar pela dor. A expressão de dor cravada no rosto dele parecia um fantasma, que em busca de justiça, voltava para assombrá-la. E a dor dele era a sua dor, sabia ela. Sempre soube. Com toda sua força de vontade, reuniu o que ainda lhe restava de coragem, e então levantou-se. A idealização de seu futuro sem ele foi cruel de uma forma que ela não imagina ser possível: sem fé, sem felicidade, sem paz. Insuportavelmente real, ela o viu materializar em sua frente, e mesmo sabendo ser apenas mais um fruto de sua confusa mente, a saudade a cobriu. Então ela caiu de novo.
O garoto agora caminhava lentamente através das lamacentas ruelas, tentando achar um caminho aonde sabia que não havia. Para ele já não importava; nada mais importava. Só queria achar alguma maneira – mesmo que impossível e dolorosa – de seguir em frente, pois sabia que era justamente a ele que cabia achar sua felicidade. Parou no meio do lugar nenhum, e solenemente fechando seus olhos, decidiu que tinha que esquecê-la. Que tinha que deixa-la ir, que tinha que acreditar com cada fibra de seu corpo que ela morreu; pois para ele, a partir daquele singular momento, ela morrera de verdade. Sentindo-se completamente diferente daquilo que jamais foi, disse sua conclusão final, seu último suspiro de dor: abandone toda esperança.
A garota continuava a tentar achar algo consistente o suficiente para se agarrar e então levantar-se de sua escuridão, mas não conseguira. Para ela, nada mais era palpável, nada mais era real. Só perda e dor. Ainda extasiada por tudo aquilo que aconteceu e por tudo aquilo que deixou de acontecer, pôs-se de pé, e mentiu para si mesma: “Está tudo bem.” Respirou fundo, e apreciando cada toque que o gelado ar noturno dava em seus pulmões, colocou-se a caminhar novamente. O que restou é a chance de seguir em frente, tomou ela por conclusão. Tentar esquecer aquilo que foi prometido jamais ser esquecido, lutar contra aquilo que antes fora amado. Mudar a si mesma de maneiras inimagináveis. Num mantra cruel e verdadeiro, pode-se notar seus rosados lábios se crisparem em um último sussurro: abandone toda esperança.

2 comentários:

Unknown disse...

aaaaa, chorei! Vc escreve muito bem :')

Jou disse...

Obrigado pelo comentário, cara Amanda
Se o sentimento que você sentiu ao ler o texto foi verdadeiro - e eu sei que foi - então valeu a pena cada segundo escrevendo ele.

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