terça-feira, 30 de março de 2010

Óculos

Às vezes gosto de me enganar, de me dizer a mentira esperando ouvir a verdade. Esse é meu maior erro, meu pecado mortal. “Mentir pra si mesmo é sempre a maior mentira.”, já sabiamente disse o mestre Renato Russo. E como eu gosto de me enganar! Tenho, como muitos outros, a inclinação a acreditar naquilo que quero, de só notar aquilo que gosto. A verdade é algo relativo, eu sei, mas quase sempre eu vejo tudo nublado, coberto por uma névoa imaginária que sol algum pode deter.
Isso sempre me traz inúmeros problemas. Me distorce a realidade, tornando demasiadamente difícil para mim ver algo óbvio aos demais. Uma sina? Certamente, mas há muito tempo já aprendi a me conviver. Eu sou míope, mas míope de uma forma diferente. Consigo sem problema algum ler as letras em minha frente, mas sou quase cego para o que não quero – e não estou apto – a ver. Se você desenha uma enorme árvore em minha frente, e só ver uma casa me faria bem, então certamente veria uma casa no lugar da árvore. Meu cérebro se adapta de acordo à minha felicidade.
Se há algum óculos para a minha nada ortodoxa miopia? Talvez, mas nunca o encontrei. Só algo muito real seja capaz de atravessar a minha imbatível névoa, e cá entre nós, nosso mundo está mais do que deficiente de coisas absolutamente reais. Num mundo em que tudo varia de acordo com os olhos que vêem, não existe uma verdade absoluta, um caminho confiável para seguir. Então, para os olhos ingênuos, como os meus, tudo se distorce. Fui preparado a acreditar naquilo que quero acreditar, de ver o que mais fácil de ser visto.
Talvez algum dia, por um golpe de anormal acaso, ache os meus óculos. E eles me mostrarão o mundo de uma forma totalmente nova, quase como se eu tivesse nascido novamente. Me mostrarão a luz aonde antes só via escuridão, me mostrarão beleza aonde antes não podia ver nada. Eu, definitivamente, não procuro o meu óculos. Até porque realmente não sei a forma que ele possui, o sorriso que ela me apresentará. Mas tenho absoluta certeza que, se por ventura ele bater em minha porta, agarrarei ele forte, e não deixarei ir jamais, jamais.

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