segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Sinceramente

As palavras me escaparam, uma a uma, quase que por capricho. Foram-se, abandonando-me justamente quando não poderiam, e lá fiquei eu, calado. O par de olhos castanho-claros continuou imbatível ao fitar-me, talvez zombeteiros quanto a meu silêncio. Vasculhei todo o meu cérebro, enxuguei toda minha mente para então achar uma pequena palavra escondida. Segurei-a com força para então apresentá-la à minha companheira:
“Oi” – Disse minha boca, falou minha voz. E esse “oi” pareceu ficar entre nós por uma pequena eternidade; ela, sem dúvidas, não quis aceitar tal palavra, e eu não a pegaria de volta, de forma alguma. Seus olhos castanhos fixaram-se em mim com perturbadora força, para então desviarem-se para a palavra que pairava perante nós. Ela hesitou um instante e acatou-a.
“Olá” – Devolveu-me ela, rápida, precisa. Um golpe certeiro direcionado a mim. E me atingiu com precisão indiscutível. Entretanto, pude seguir firme. Precisava ir mais longe, repeti para mim mesmo, mais longe. Mas como poderia ir mais longe quando seu olhar me segurava como mil algemas, prendendo-me com tamanha força que jamais poderia escapar? Ela vacilou por um instante, e então eu ataquei.
“Como vai você?” – Por essa ela não esperava. Meu contra-ataque inesperado a tinha deixado sem reação, notei. Ela processou as palavras por alguns longos segundos, para então preparar com louvor sua réplica, não sem antes tentar me prender com olhar – dessa vez escapei com eficiência.
“Vou muito bem. E você?” – Suas palavras voaram até mim, atingindo-me com um baque seco. Recuperar-me-ia sem problemas, mas ela tinha que sorrir. Ah, seu sorriso! Se seu olhar podia me aprisionar, seu sorriso me desarmava, deixava-me vulnerável. Hipnotizava-me, dominava-me, destruía-me. E ela sabia. E usava. E brincava com suas armas. Percebendo que não tinha mais chance alguma, pensei em desistir. Mas não sem antes usar minha última cartada: sorrir de volta.
“Estou bem, também.” – Respirei aliviado. Ela também pareceu, de alguma forma que não compreendo, amarrada a meu sorriso. Estávamos nós dois, grudados um ao outro na forma de um riso. Presos. Enjaulados. E, sem qualquer sombra de dúvida, apaixonados.
“Quer caminhar um pouco?” – A voz dela, doce, veio sorrateira até mim, flutuando sem pretensão até entrar em meus ouvidos. Acariciou-me como veludo, tocando-me, para então me dominar. Joguei minhas palavras, ainda um pouco trôpegas, em direção do castanho de seus olhos.
“É claro.” – Dessa vez não foram palavras, nem olhares, nem sorrisos, nem vozes que se arrastaram entre nós; foram nossas mãos. Ambas mãos caminharam com lentidão em direção uma a outra, como duas velhas amigas, para então se abraçar.
Já com mãos entrelaçadas, caminhamos sem pressa pelas árvores barulhentas em nossa volta, ambos sem a mínima vontade de entender o que estava acontecendo. Queríamos apenas viver, sem dar importância para as conseqüências. E assim fizemos. Nosso amor envolvia-nos, pairando sobre nós. Inspirávamos tal sentimento, sem a mínima pretensão de devolvê-lo.
A mão dela escapou de minha, sem aviso prévio. Quando me virei, indignado, para protestar, não tive tempo; seus braços me envolviam num apertado abraço, do qual não tinha a mínima vontade de escapar. Seus lábios vieram em direção dos meus, não sem antes deixarem escapar apenas três palavras quase inaudíveis:
“Eu te amo”.

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