A dor pairava perante aquele par de olhos que me olhavam, confusos, tentando de alguma forma achar uma resposta. E tal resposta pareceu ficar entalada em minha garganta, querendo escapar para então tentar reconfortar aquela dor. Mas não escapou; permaneceu ecoando dentro de minha cabeça, talvez temente, talvez apenas inconsistente. Eu, covarde, quis fugir, mas já não havia essa possibilidade: agora aquela angústia também era minha.
O rosto que se formava à minha frente não era, nem de longe, parecido com aquele que há muito tempo atrás havia conhecido; estava perturbadoramente diferente. Aqueles olhos que insistiam em me transmitir sua dor haviam presenciado tantas coisas, liberado tamanhas lágrimas. E a dor também era minha, lembrei-me, também me pertence.
O rosto obstinado perante mim estava envelhecido. Perturbado. Mudado. O vidro infalível, o espelho inegável refletia minha imagem. Era meu rosto que me assustava, eram meus fantasmas que me assombravam. Vi novamente os olhos cheios de dor, meus olhos, e lá só achei escuridão.
Talvez por capricho do destino, um raio de luz cintilou perante a escuridão. Não era apenas um raio de luz; era o raio de luz. Aquele pelo qual valeu a pena esperar, o que deveria mudar tudo e todos. Deveria continuar em minha inércia itinerante ou arriscar o pouco que me resta de felicidade por um punhado de raio de luz que, sorrateiro, veio brilhar no horizonte?
Fitei novamente o meu segundo sol, que agora resplandecia sem discrição ao meu lado. Seu calor me reconfortava, sua luz me iluminava como nada jamais foi capaz. Arrepender-me-ia gravemente caso me jogasse sem pára-quedas em seus mistérios? Talvez. Mas quando você vê um segundo sol surgindo ao horizonte, nunca se deve deixá-lo escapar. Meu sol sorriu para mim. E eu , sem nem ao menos pestanejar, me joguei.

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