As lágrimas vieram novamente, fluentes, constantes. Elas insistiam em nascer em meus olhos, sem pena nem hesitação, para então sumirem em meu rosto. Não deveriam, mas elas me machucavam, pois sempre traziam consigo lembranças dela. Meu amor, minha vida; minha vida que acabou. Ela se foi, mas ainda permaneceria em mim, enquanto eu viver. Melhor, enquanto eu sobreviver. Sem ela eu não sou vida, sou apenas um sopro que insiste em vagar através de memórias, um fantasma vazio esperando o tempo passar. É isso que sou agora: uma sobrevida que jamais se irá se recuperar – ou se perdoar – pela perda de sua outra metade.
Marian se fora naquela noite chuvosa, se fora em meus braços. Nada visível ficou em mim, mas só eu sei a profundidade das cicatrizes que esse incurável ferimento deixou. E eu fui inútil, impotente. Não pude salvá-la, não fui capaz de impedir sua morte. E lá vieram as lágrimas novamente, agora caindo no solo sem vida do túmulo de Marian.
Senti-me mais sem vida do que jamais sentira antes. Estava vazio. Vi as rosas pousando solitárias em cima de um vaso cinzento, e quase por reflexo, lembrei-me da noite em que ela me contara que havia algo de errado com ela, em um bilhete escrito às pressas e selado com um beijo. E a onda de saudade veio novamente, me cobrindo, me derrubando. Ela se fora há apenas três semanas, mas para mim parecia a mais longa das eternidades.
Uma chuva fina, insistente, agora caia do céu, molhando de leve minha face, misturando-se com minhas lágrimas, lavando a minha dor. E eu continuava lá, inerte, uma estátua guardando o repouso eterno de sua amada. Então comecei a sentir um sentimento estranho, impossível de não ser reconhecido: estava sendo observado. Virei-me e achei o rosto de Sara me encarando, sério.
“Você não deveria vir aqui diariamente” – disse-me ela. – “Isso vai acabar te destruindo.”
“O que você tem a ver com isso?” – Embora ela tentasse ser doce comigo, eu a odiava com todas minhas forças: para mim, ela era a culpada da morte de Marian.
“Nathan, eu preciso falar com você, imediatamente.”
“Saia daqui, por favor.” – Minha voz soou baixa, porém ameaçadora. Uma desconhecida onda de raiva, quente e imbatível, cresceu dentro de mim.
“Eu não vou sair nem daqui e nem de sua vida enquanto eu não...”
Eu nem pensei. Tudo pareceu um borrão, e quando eu vi, estava segurando Sara com força, e as palavras simplesmente eram cuspidas de minha boca:
“SAIA DAQUI, AGORA! VOCÊ É A CULPADA, VOCÊ! SE NÃO FOSSE POR VOCÊ E AQUELE SEU MALDITO LIVRO, MARIAN AINDA ESTARIA COMIGO AGORA!”
Para minha surpresa, ela não reagiu. Só continuava olhando fixamente para mim, sem dizer uma palavra. Uma lágrima brilhante escorreu sorrateira por um de seus olhos, caindo imbatível no chão. E, quando tomei consciência, seus braços estavam envolta do meu pescoço, suas lágrimas mornas remanescendo em meu peito. Por instinto, talvez, também a abracei, e lá permanecemos nós dois, acabados em lágrimas e dor.
Horas depois, eu e Sara estávamos em meu quarto, ela segurando com força o livro que conheci através da história contada por Marian. Ela começou a falar:
“Foi este livro que levou Marian. Vou te contar como ele funciona: sempre que ele troca de mãos, de dono, trás com ele uma maldição, e então o antigo portador é libertado. Mas o novo dono preciso conhecer esse fato, e aceitá-lo. A única maneira de se salvar, então, é passando o livro adiante, a colocando a vida de alguém que foi corajoso o suficiente para aceitar em risco. Marian, ela... ela me salvou. Naquela noite, na noite em que ela se foi, ela deveria passar a maldição para você, você deveria ser o sacrifício dela. Mas ela não o fez, escolheu morrer a te levar.”
“Isso tudo é sério, é verdade?” – Lá no fundo, eu sabia que tudo aquilo era real.
“É.” – Sara olhava com firmeza para mim.
“Mas por que você está me contando isso justamente agora?” – Questionei eu à Sara. Não sei a causa, mas uma ínfima linha de esperança crescia em mim agora.
“Quanto você ama Marian, Nathan?”
“Mais do que você um dia irá compreender.”
“E quanto você está disposto a pagar para tê-la de volta?”
“O que for necessário.” – Disse eu, absoluto.
“Sua vida está incluída nesse necessário?”
“Até sua vida está incluída nesse necessário.”
“E se eu dissesse que se você aceitasse esse livro agora, talvez haja uma chance de nós encontrarmos Marian novamente?”
“Talvez haja?” – Questionei eu.
“Não mentirei para você. Há duas chances: em uma nós voltaremos a ver Marian, na outra você morrerá. Você está disposto à pagar este preço, Nathan?” – Sara olhava com firmeza para mim; medo crescia em seus olhos.
“Mil vezes, se for preciso.” – Ela olhou sem piedade para mim, e então passou o livro. Eu não hesitei; o aceitei, aceitei a maldição. Um frio sem motivo me cobriu, e então já não existia nem Sara, nem quarto, nem livro; apenas escuridão.
Marian se fora naquela noite chuvosa, se fora em meus braços. Nada visível ficou em mim, mas só eu sei a profundidade das cicatrizes que esse incurável ferimento deixou. E eu fui inútil, impotente. Não pude salvá-la, não fui capaz de impedir sua morte. E lá vieram as lágrimas novamente, agora caindo no solo sem vida do túmulo de Marian.
Senti-me mais sem vida do que jamais sentira antes. Estava vazio. Vi as rosas pousando solitárias em cima de um vaso cinzento, e quase por reflexo, lembrei-me da noite em que ela me contara que havia algo de errado com ela, em um bilhete escrito às pressas e selado com um beijo. E a onda de saudade veio novamente, me cobrindo, me derrubando. Ela se fora há apenas três semanas, mas para mim parecia a mais longa das eternidades.
Uma chuva fina, insistente, agora caia do céu, molhando de leve minha face, misturando-se com minhas lágrimas, lavando a minha dor. E eu continuava lá, inerte, uma estátua guardando o repouso eterno de sua amada. Então comecei a sentir um sentimento estranho, impossível de não ser reconhecido: estava sendo observado. Virei-me e achei o rosto de Sara me encarando, sério.
“Você não deveria vir aqui diariamente” – disse-me ela. – “Isso vai acabar te destruindo.”
“O que você tem a ver com isso?” – Embora ela tentasse ser doce comigo, eu a odiava com todas minhas forças: para mim, ela era a culpada da morte de Marian.
“Nathan, eu preciso falar com você, imediatamente.”
“Saia daqui, por favor.” – Minha voz soou baixa, porém ameaçadora. Uma desconhecida onda de raiva, quente e imbatível, cresceu dentro de mim.
“Eu não vou sair nem daqui e nem de sua vida enquanto eu não...”
Eu nem pensei. Tudo pareceu um borrão, e quando eu vi, estava segurando Sara com força, e as palavras simplesmente eram cuspidas de minha boca:
“SAIA DAQUI, AGORA! VOCÊ É A CULPADA, VOCÊ! SE NÃO FOSSE POR VOCÊ E AQUELE SEU MALDITO LIVRO, MARIAN AINDA ESTARIA COMIGO AGORA!”
Para minha surpresa, ela não reagiu. Só continuava olhando fixamente para mim, sem dizer uma palavra. Uma lágrima brilhante escorreu sorrateira por um de seus olhos, caindo imbatível no chão. E, quando tomei consciência, seus braços estavam envolta do meu pescoço, suas lágrimas mornas remanescendo em meu peito. Por instinto, talvez, também a abracei, e lá permanecemos nós dois, acabados em lágrimas e dor.
Horas depois, eu e Sara estávamos em meu quarto, ela segurando com força o livro que conheci através da história contada por Marian. Ela começou a falar:
“Foi este livro que levou Marian. Vou te contar como ele funciona: sempre que ele troca de mãos, de dono, trás com ele uma maldição, e então o antigo portador é libertado. Mas o novo dono preciso conhecer esse fato, e aceitá-lo. A única maneira de se salvar, então, é passando o livro adiante, a colocando a vida de alguém que foi corajoso o suficiente para aceitar em risco. Marian, ela... ela me salvou. Naquela noite, na noite em que ela se foi, ela deveria passar a maldição para você, você deveria ser o sacrifício dela. Mas ela não o fez, escolheu morrer a te levar.”
“Isso tudo é sério, é verdade?” – Lá no fundo, eu sabia que tudo aquilo era real.
“É.” – Sara olhava com firmeza para mim.
“Mas por que você está me contando isso justamente agora?” – Questionei eu à Sara. Não sei a causa, mas uma ínfima linha de esperança crescia em mim agora.
“Quanto você ama Marian, Nathan?”
“Mais do que você um dia irá compreender.”
“E quanto você está disposto a pagar para tê-la de volta?”
“O que for necessário.” – Disse eu, absoluto.
“Sua vida está incluída nesse necessário?”
“Até sua vida está incluída nesse necessário.”
“E se eu dissesse que se você aceitasse esse livro agora, talvez haja uma chance de nós encontrarmos Marian novamente?”
“Talvez haja?” – Questionei eu.
“Não mentirei para você. Há duas chances: em uma nós voltaremos a ver Marian, na outra você morrerá. Você está disposto à pagar este preço, Nathan?” – Sara olhava com firmeza para mim; medo crescia em seus olhos.
“Mil vezes, se for preciso.” – Ela olhou sem piedade para mim, e então passou o livro. Eu não hesitei; o aceitei, aceitei a maldição. Um frio sem motivo me cobriu, e então já não existia nem Sara, nem quarto, nem livro; apenas escuridão.

3 comentários:
Ahhh estou curiosa,cadê o resto...
e o resto?
Perdoem-me pelo atraso da postagem do fim desta história...
Para falar a verdade, eu já terminei de escrever os últimos capítulos há muito tempo, mas por motivos pessoais decidi deixá-los de lado. Mas eu seria um completo idiota em começar a postar uma história e não terminar, certo?
Obrigadão a todos e todas que leram esse conto até aqui, e em breve confiram o desfecho dela, que ainda carece de um pouco de edição.
With all due respect, J.S.
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